quinta-feira, 5 de maio de 2016

Rio-2016 é "chance única" para handebol feminino do Brasil, avalia Duda

(Foto: Alexandre Loureiro/Inovafoto)


Campeã mundial em 2013, a seleção feminina de handebol segue na elite do esporte e é candidata a medalha na Rio-2016. Pelo andar da carruagem, porém, os Jogos em casa podem ser a última chance da equipe de ir ao pódio olímpico. Essa é a visão de Duda Amorim, melhor jogadora do mundo em 2014 e estrela do time, que está preocupada com o que acontecerá quando a geração que chegou ao topo do planeta começar a se afastar das quadras.

“Eu não gosto muito de falar disso porque eu não vejo uma renovação muito legal na seleção. Eu acredito que as meninas que estão com a gente vão seguir o esquema de mentalidade. Se unir foi o jeito que nós, brasileiras, como equipe, conseguimos o resultado. Quem entra a gente tem de tentar adaptar. Não vejo uma renovação de tanta qualidade. Vejo essa oportunidade [Rio-2016] como única, especial”, disse a jogadora de 29 anos, em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

A preocupação é com o próximo passo de um esporte que abriu as portas da elite europeia há mais de dez anos, quando Chana Masson, Dani Piedade, Dara e outras pioneiras do handebol se aventuraram no Velho Continente. O que acontecerá quando essa geração que levou o Brasil ao topo do mundo começar a parar? Para Duda, o cenário não é animador.

Só que a preocupação com o futuro não tem nada a ver com a concentração no presente. No próximo fim de semana, ela tem a chance de ganhar pela terceira vez a Liga dos Campeões da Europa, o torneio mais importante do handebol mundial. Em agosto, tem confiança de que pode ajudar a seleção a conseguir a primeira medalha, ainda que seja na última chance.

Veja, abaixo, os melhores trechos da entrevista de Duda, em que ela fala mais sobre renovação, avalia o grupo do Brasil na Rio-2016 e fala sobre a expectativa de ser tri na Liga dos Campeões. Confira:

Por que não está animada com a renovação da seleção?

"Acredito que não há um grande número de atletas. Eu também não posso comentar porque não estou todo dia no Brasil, mas faltam atletas com sonhos. E esse nível europeu a gente necessita ainda. A gente precisa que as atletas do feminino saiam no Brasil. Eu acredito mais na renovação do masculino que no feminino do Brasil.

O que faltou no Mundial 2015 foi “mentalidade"

Acredito que a experiência no Hypo [time austríaco que recebeu a base da seleção até 2014, em parceria com a CBHb] foi importante, mas não fundamental. Tanto é que no Hypo tinham cinco ou seis atletas, mas não estavam todas. Foi bem importante, mas o que fez a gente ganhar foi a mentalidade de cada atleta. Como teve postura, como a gente se entregou de corpo e alma. E isso não aconteceu nesse último Mundial. A gente colocou todo o foco lá dentro, mas faltava aquela sede de ganhar de novo. A gente está na chave da morte na Rio-2016. A gente pode até não se classificar. Todo dia que a gente levanta tem de treinar um pouquinho a mais.

Morten estava certo sobre handebol no país

Talvez ele [Morten Soubak, técnico da seleção, em entrevista ao UOL Esporte em dezembro passado] tenha separado as duas coisas. Na seleção a gente não tem problema de apoio. No clube realmente, na liga nacional, acredito que falta estrutura sim. Não estou no dia a dia das pessoas, mas a gente escuta muito técnico e meninas reclamando. Muitas pessoas têm de parar de jogar porque falta dinheiro. É uma reclamação. Não estou lá, mas escuto que deu uma piorada.

Seleção atual tem "perfeita mistura" e pode ganhar

É uma equipe muito especial. A gente já está há muito tempo juntas. Temos a perfeita mistura. É especial. A equipe trabalha muito, passou por muitos perrengues. A gente tem um grupo de whatsapp. De vez em quando a gente brinca uma com a outra: ‘Como está o treino aí?’. Agora vai ter de dar mais foco em tudo. Não só a gente, mas a comissão teve muitas reuniões individuais para ver o que pode melhorar, o que fazer, onde agir. Quando tem manhã livre, tentar fazer uma academia ou corrida extra, por exemplo.

Comissão se preocupa mais com pressão que as atletas

Não é uma coisa que a gente pensa constantemente. A comissão se preocupa mais com isso do que a gente. Eu me preocupo mais com a parte tática. É assim que acho que vou lidar melhor com a pressão. Se tenho a consciência limpa de que fiz tudo que eu podia isso vai me deixar mais calma. A questão da torcida eu não vejo um problema. A torcida de handebol do Brasil sempre foi muito querida com a gente. Quem entende, torceu no momento bom e no ruim. Nesse Mundial teve bastante gente apoiando, por exemplo.

Escolha do técnico por grupo mais difícil foi acertada

Acredito que Morten fez a decisão certa de tentar ir nesse método. Me preocupei um pouco no início, mas se ele acredita na gente a gente vai acreditar também. É bom pegar a Noruega no começo, por exemplo. Às vezes elas começam meio em baixa e vão crescendo na competição. A primeira fase vai ser mais disputada, mas ele escolheu isso pra gente ter um cruzamento teoricamente mais fraco.

Temporada foi mais difícil por conta da lesão

Para mim, se vier o título [da Liga dos Campeões] vai ser muito especial. Essa temporada foi difícil até voltar a forma de antes [Duda rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo e parou por mais de seis meses em 2015]. A gente espera que seja um jogo muito forte. As duas equipes têm a melhor defesa. Vai ser o confronto mais forte. Acredito que a gente pode ganhar esse jogo.

Últimos treinos foram bons, mas amistosos não

A primeira fase de treinos [de 2016] foi ótima. Fiquei chateada porque a gente se dedicou ao máximo na semana e no jogo não saiu do jeito que a gente queria. Nos amistosos eu particularmente não gostei do jeito que a gente jogou. Serviu de aprendizado. Nos três jogos alguma coisa foi boa. Se conseguir juntar isso num jogo só [risos]. Eu esperava mais.

Nota da Redação: A seleção se reuniu na Noruega em março e, depois de uma semana de treinos, perdeu para Alemanha, Espanha e Noruega. Foi o primeiro encontro do time antes do Mundial de 2015.

Champions do handebol tem show e fogos

Seria minha terceira conquista na história. Quero continuar com esse feito. É legal, porque as pessoas realmente não sabem do tamanho. Eu tento mostrar isso nas minhas redes sociais. Hoje a gente a gente tem muito mais amantes de handebol. É legal o Esporte Interativo mostrar os jogos ao vivo. É um evento super legal. Para o atleta talvez não seja o ideal, porque são dois jogos de alto nível em 24h, mas para o público é. Tem música, fogos na entrada. Fazem um show pra quem está assistindo.

Nota da Redação: O húngaro Gyor, time de Duda, enfrenta o Buducnost, de Montenegro, atual campeão da Liga, no sábado, às 10h15. A outra semi é entre o romeno Bucuresti, de Mayssa, Fernanda e Ana Paula, e o Vardar, da Macedônia, às 12h45. A final é já no domingo, assim como a disputa pelo terceiro lugar.

UOL Esporte