segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Proposta no Corinthians prevê venda de ações na Bolsa para pagar o estádio

(Foto: Friedemann Vogel/Getty Images)


Membros do Conselho Deliberativo corintiano, oposicionistas à gestão de Roberto de Andrade, trabalham em um projeto ambicioso para tentar diminuir a dívida do clube com a construção da arena em Itaquera, caso consigam chegar ao poder.

A ideia, considerada ousada e de difícil execução, é de abrir o capital do clube na Bolsa de Valores. Seriam vendidas ações, e o dinheiro arrecadado serviria para pagar parte do dinheiro devido da obra – estima-se que, com juros, o custo final do estádio seja de R$ 1,2 bilhão.

O tema divide até os membros da oposição por não ser algo simples de se fazer. Hoje não há um único clube de futebol brasileiro com ações na bolsa, principalmente porque há uma série de exigências da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para que a venda das ações aconteça. A principal é que a empresa que virá a ser aberta tenha qualidade e profissionalismo em seu gerenciamento, algo pouco usual para qualquer clube de futebol.

As conversas, porém, tem como foco os possíveis investidores. Com milhões de torcedores, a expectativa é que a venda das ações do Corinthians na Bovespa atrairia muitos interessados, principalmente se o destino final do dinheiro for diminuir, ou até encerrar, uma dívida que promete desgastar as finanças do clube por muitos anos.

O fundo que administra o estádio, que tem o Corinthians como parte, tem que pagar, aproximadamente, R$ 5,5 milhões por mês para a Caixa, banco que fez a ponte com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para o empréstimo. Isso até 2028. O pagamento, entretanto, está suspenso porque o clube negocia com a Caixa uma carência maior.

O plano de abrir o capital no Corinthians não é nova. Em 2013, o ex-presidente Waldemar Pires, hoje conselheiro vitalício e membro do Conselho de Orientação do clube, esboçou um projeto. Ele tem uma corretora de valores, a Walpires, e a ideia era que fosse feito um IPO, sigla em inglês para oferta pública inicial, que consiste, basicamente, na primeira venda das ações de uma empresa na Bolsa de Valores para o público em geral.

A proposta agora é a mesma. Mas há dois problemas para a execução: 1) o grupo que planeja isso precisa estar no poder; 2) pode demorar anos para que o capital seja aberto, e nesse meio tempo o clube pode encontrar outras soluções para o “problema” estádio.

“Não há nenhum clube no Brasil neste momento preparado para fazer uma abertura de capital que dê segurança suficiente aos investidores que venham a comprar suas ações. Por exemplo: a gestão dos clubes é baseada em eleições a cada dois ou três anos e em agrupamentos políticos que entram e saem do poder, compondo administrações com pessoas que nem sempre são as mais qualificadas. Que confiança isto daria a um investidor profissional?”, disse o advogado especializado em direito desportivo Eduardo Carlezzo, que continuou.

“Como os clubes carregam pesadas dívidas e como seus custos são cada vez maiores, a abertura de capital, para que valha a pena, deve ser feita com o fim de obter uma grande captação de valores. Contudo, isto também fica prejudicado pela situação econômica do país, que não é nada amigável para o lançamento de ações na bolsa”, falou Carlezzo.

Segundo ele, é impossível prever um tempo para a conclusão do processo, mas não é de curto prazo. E um clube poderia vender as ações para pagar seu estádio?

“Sim, mas a forma de utilização dos recursos captados deve estar no projeto do IPO”, disse.

A dívida

Inicialmente, o estádio custaria R$ 820 milhões, e seria pago com o empréstimo do BNDES (R$ 400 milhões) e, o restante, com venda dos CIDs (Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento) da Prefeitura de São Paulo, que são impostos em forma de papel que o Corinthians poderia vender para reverter em dinheiro.

O problema é que os CIDs não foram vendidos, depois que o Ministério Público de São Paulo questionou o benefício dado pela Prefeitura. O clube não conseguiu até hoje vender o naming rights, o nome do estádio para uma empresa, que na conta inicial renderia R$ 400 milhões, e ajudaria no abatimento da dívida.

Para piorar, sem o dinheiro dos CIDs, a construtora Odebrecht realizou a obra com recursos próprios (isso, agora, está em investigação por uma auditoria contratada pelo clube, para saber se houve gastos indevidos), e mais empréstimos foram feitos, o que fez o valor chegar aos tais R$ 1,2 bilhão.

Impeachment

Roberto de Andrade é investigado por fraude fiscal, por supostamente ter assinado um documento já como presidente do Corinthians dois dias antes de assumir o cargo, em fevereiro de 2015.

O caso foi revelado pela revista “Época”, e, se comprovado, pode resultar no impeachment do cartola. Andrade nega, e o departamento jurídico corintiano explicou que a documentação demorou um mês para ser confeccionada, e o presidente já assinou com mandato vigente.

UOL Esporte