quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Psicomotricidade e superdotados: qual a relação com a alta performance no esporte

(Foto: Reprodução/Google)

Por Nicholas Araujo
Redação Blog do Esporte


Cada vez mais o esporte exerce uma função importante para contribuir no desenvolvimento intelectual e físico das pessoas, principalmente na infância. Essa prática também é aplicada, na sua maioria, em pessoas consideradas superdotadas ou as chamadas autodidatas.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a estimativa é que existam mais de 10 milhões de superdotados intelectuais no Brasil, o que corresponde a 5% da população. Se considerarmos todas as probabilidades, esse percentual gira em torno de 10% dos habitantes, ou aproximadamente 20 milhões de brasileiros com talentos acima da média.

Segundo a psicomotricista Rosa Maria Prista, que estuda o homem através do seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo, os superdotados são identificados com um espectro sistêmico combinados com aspectos como percepção, atenção, memória, inteligência e análise.

“Proponho uma avaliação globalizada envolvendo dados do superdotado e sua forma de agir no meio, da família, pois os pais interferem significativamente neste processo, e da escola, onde a pessoa está matriculada. Nenhum diagnóstico do superdotado pode ser feito sem uma análise contextualizada e criando elos entre as várias dimensões”, explica.

Para que essa habilidade seja colocada em prática no esporte, Rosa explica que o processo deve acontecer com aprovação da criança e observado atentamente por especialistas. “É preciso compreender que se o esporte for compreendido pelo olhar da motricidade humana, ele pode iniciar desde os três anos de idade porque o esporte, sob este viés, vai trabalhar não só o físico, mas os valores, autoconceito, esquema e imagem corporal e principalmente a capacidade de se tornar humano com humanos”.

(Foto: Reprodução)

Prática

A profissional critica a postura da sociedade no que se refere ao desenvolvimento social e intelectual. “O superdotado acima de tudo é uma pessoa, mas dependendo das condições sociais, normalmente desenvolve posturas inadequadas e ausentes do convívio social. Não temos uma sociedade que aceita e gosta de talentos”, destaca.

Rosa exemplifica que o esporte trabalha diferentes áreas de cada habilidade, mas há uma relação entre os superdotados. “O esporte é de extrema importância, mas há uma relação dialógica que acredito entre os racionais, os criativos e os emocionais, pois cada um, em seu perfil, devem ser inseridos em atividades que reequilibrem seu ser”.

"Se uma criança é muito racional, passa horas no computador, o esporte colaborará no enriquecimento das outras dimensões neuropsicológicas. Uma pessoa com alta habilidade cinestésica deve ser estimulada a atividades mais reflexivas, tornando-o um ser humano com profundidade”, explica.

(Foto: Reprodução/Iona For Kids)

Psicomotricidade

A profissional nos conta sobre um caso onde o psicológico não é trabalhado no mesmo ritmo do físico, o que não proporciona um bom rendimento, no que tange o trabalho de um psicomotricista. “Trabalhei em um clube onde o trabalho foi desenvolvido com a equipe com bases extremamente cartesianas - focando só o físico – e minha função foi alertar para a perda de potencial humano. Não há atleta eficiente se não for trabalhado no movimento intencional. As equipes esportivas trabalham apenas o movimento funcional, e isto é muito pouco para a complexidade humana, e muito aquém dos estudos das neurociências”.

Rosa enfatiza que a psicomotricidade não trabalha com corpos físicos, mas com corporeidade – relação do cérebro com as funções do corpo no mundo. “[A psicomotricidade] Não atua com atletas, mas com atletas-homem. Não trabalha controlando movimentos, atua com a motricidade como potência adaptativa, alterando inclusive biomarcadores (compostos de carbono, hidrogênio e outros elementos). A psicomotricidade refuta controle corporal, mas ensina o sujeito a se auto organizar e a se lançar no mundo”.

A profissional conclui destacando o apoio e o trabalho em conjunto como fator determinante para que o desenvolvimento intelectual e corporal seja significativo. “Os desafios de ser atleta podem e devem ser enfrentados quando há apoio do psicólogo e do psicomotricista na equipe do clube. Este apoio não foca o atleta, mas toda a equipe, e a forma como esta lida com os atletas”.