domingo, 30 de julho de 2017

Lima Barreto e sua busca para romper barreiras e a elitização do futebol

(Foto: Acervo da Fundação Biblioteca Nacional)

Por Nicholas Araujo
Redação Blog do Esporte


Homenageado da 15ª Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), o autor Lima Barreto é considerado um dos primeiros modernistas da literatura brasileira pós-Império e pós-escravidão. Buscando reconhecimento em vida, Lima Barreto morreu jovem, aos 41 anos, e foi um escritor crítico da elite branca e defensor das minorias.

Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no dia 13 de maio de 1881, na cidade do Rio de Janeiro, filho de João Henriques de Lima Barreto e Amália Augusta. Seu pai trabalhava como tipógrafo e era amigo de Visconde de Ouro Preto, que se tornou padrinho do futuro escritor. O apadrinhamento fez com que Lima estudasse em escola de qualidade. Em sua turma, ele era o único negro em meio a classe branca.

Seu primeiro contato com a escrita acontece em 1903, quando foi aprovado em concurso público e começou a trabalhar na Secretaria de Guerra. Iniciou sua colaboração na imprensa publicando artigos e crônicas em periódicos como Correio da Manhã e Jornal do Commercio.

(Foto: Acervo da Fundação Biblioteca Nacional)

Toda sua dedicação com o trabalho e seus escritos fizeram de Lima Barreto um grande defensor das minorias e crítico a exclusão dos negros da sociedade. Com a assinatura da Lei Áurea em 1888, Lima utilizou os espaços na imprensa brasileira para criticar a elite branca, o branqueamento da sociedade brasileira e a elitização dos esportes, como o futebol.

Trazido pela Inglaterra ao Brasil, o futebol era prestigiado apenas pela elite branca brasileira, das belas mulheres com seus chapéus, e uma forma do patrão “controlar” o seu empregado. Quando não estava em seu horário de serviço nas fábricas, os operários estavam nos clubes praticando o "football", sem tempo para reuniões nos sindicatos ou para reivindicar melhores condições de trabalho.

Para se praticar o “football” devia-se, no mínimo, falar inglês. Era nítido a divisão elitizada do esporte. De um lado, a fina elite pós-República e do outro a grande massa de pobres constituída por pretos e mestiços. Com isso, Lima Barreto começou a publicar artigos ironizando o futebol entre os anos de 1920 e 1922. Nas coletâneas Marginália e Feiras e Mafuás, é possível ler crônicas como Bendito Football, Educação Física, Memórias da guerra, O trem dos subúrbios, entre outros.

“Preenchidas com certo nacionalismo, L. Barreto combatia o futebol, mesmo sabendo que seus flancos estavam à mostra para posterior rebates da crítica jornalística da época. Indignado, não poderia permitir que um esporte da elite carioca/fluminense pudesse ser confirmado como um esporte agregário e educativo, representando a face elitista da República junto ao povo. Tampouco pudesse ser tido como um esporte heróico, pois na sua essência figurava a segregação, o preconceito social e racial, marca tênue das atividades futebolística e clubística da época”. (SANETO; dos ANJOS; JARDIM, 2012).

O governo da época chegou a baixar um decreto que proibia negros na seleção brasileira, o que foi um grande desaforo para Lima. Suas críticas continuaram fervorosas, principalmente ao contexto geral do futebol, que o comparou com as artes e ciências da época. “[...] a grandeza de um país não se mede pelo desenvolvimento das artes, da ciência e das letras. O padrão do seu progresso é o grosseiro football e o xadrez de ociosos ricos ou profissionais”.

Por sua participação ativa na vida brasileira, Lima Barreto foi ignorado por boa parte da sociedade da época. Não alcançou o prestígio que sonhava, mas seus escritos mostravam nitidamente sua realidade: sua morada em Todos os Santos, seu trajeto pelo trem da Central do Brasil, suas descrições da pobreza com imensa dignidade e seu desprezo pelo futebol elitizado.

Lima Barreto teve problemas com alcoolismo e foi internado em um hospício entre 1914 e 1919. Saiu de lá com a saúde debilitada, mas ainda com a fome de escritor. Morreu em 1º de novembro de 1922 sem terminar o seu último livro, Cemitério dos Vivos, que conta sua passagem pelo hospício.

Deixou escritos que foram publicados em 1952 por Francisco de Assis Barbosa, em um dos grandes trabalhos de recuperação e publicação de obras de Lima. Seu reconhecimento acontece atualmente, como um pré-modernista à frente do seu tempo, mas com uma certa pressa. Foi oposto a Machado de Assis e visionário, como seu personagem Policarpo Quaresma: “Policarpo, tu és um visionário!”