sábado, 2 de setembro de 2017

Grid incomum do GP da Itália é a garantia de corrida bastante movimentada

(Foto: Getty Images)


Quem em sã consciência poderia imaginar que na casa da Ferrari, em Monza, Itália, dois meninos da F1, Lance Stroll, 18 anos, da Williams, e Esteban Ocon, 20, da Force India, largariam em segundo e terceiro? E o líder do mundial, Sebastian Vettel, ídolo dos tifosi da Ferrari, vai começar a corrida, amanhã, apenas em sexto?

O pole position todos sabem, é Lewis Hamilton, da Mercedes. Se ele está numa sessão de classificação as suas chances são sempre as maiores. Não importa se no molhado, como neste sábado, ou no asfalto seco. Quer um atestado? Hamilton, no seu 201º GP, se tornou, neste sábado, o piloto com maior número de pole positions da história, 69, uma a mais de Michael Schumacher. Isso quer dizer que a cada 2,9 GPs Hamilton começou a prova em primeiro lugar.

É um verdadeiro pecado a dupla da RBR não poder largar de acordo com o excepcional trabalho que fez na sessão de definição do grid. O piloto que lembra muito Ayrton Senna no asfalto molhado, o holandês Max Verstappen, para aumentar o grupo de adolescentes bem dotados da F1, só perdeu a pole quando o cronômetro já estava zerado, com a volta impressionante de Hamilton. A troca do motor turbo (ICE) e do sistema de recuperação de energia térmica (MGU-H) lhe valeram a perda de 15 posições no grid.

E o seu companheiro, o sempre eficiente Daniel Ricciardo, foi terceiro, mas cai para 18º por trocar quase tudo, até o câmbio.

O que essa mexida no grid quer dizer? Que teremos uma corrida cheia de alternativas, ao menos na sua primeira metade, até as posições mais ou menos se estabilizarem. Se é que irão. “Você disse Ocon e Stroll? Uau, é incrível!", disse Hamilton ao repórter do GloboEsporte.com, ao lhe ser perguntado como projeta a prova, com estreantes das primeiras colocações do seu lado. “Essas crianças no meu vácuo. Ocon e Stroll têm pilotado muito este ano. Chegaram em um ano de grandes mudanças nos carros, a F1 é bem mais física do que estavam acostumados (GP3 e F3), um imenso desafio, estão fazendo um supertrabalho, têm futuro promissor.”

O GloboEsporte.com perguntou, ainda, como Hamilton via o fato de Kimi Raikkonen largar em quinto e Vettel em sexto. Isso por conta das punições aos pilotos da RBR. Hamilton não respondeu. Apenas comentou as esperadas condições da corrida. “O asfalto vai estar verde (sem a borracha dos pneus, retirada pela forte chuva), será diferente.”

Expondo as garras

O lado menino de Stroll se manifesta mais quando ele obtém algo grandioso na F1, como neste sábado, em Monza, ao se tornar o mais jovem piloto a largar na primeira fila de um GP. No ano passado, Max Verstappen, com 18 anos, registrou o segundo tempo para o grid do GP da Bélgica, mas Stroll ganha do holandês por 23 dias.

“Eu nunca havia pilotado um carro de F1 nessas condições, realmente extremas. Mas desde as primeiras voltas senti o carro na mão, eu me diverti bastante”, disse, movimentando-se para todo lado. Não conseguia conter a alegria interior. Foi assim também este ano no GP do Azerbaijão, oitavo do calendário, dia 25 de junho, quando recebeu a bandeirada em terceiro, seu primeiro pódio. E da mesma forma com recorde: o mais jovem da história da F1, 18 anos e 8 meses.

Neste sábado, o filho do megaempresário canadense Lawrence Stroll falou, ainda: “Vou largar ao lado de Lewis. É claro que não esperava um resultado desses. Nos treinos livres, no seco, tinha vários problemas de equilíbrio no carro”. Uma das suas características é não se abalar com o que vem pela frente, ao menos no discurso. “Será uma largada como as outras que fiz, a diferença é que estarei em segundo no grid.”

Stroll abordou a questão de, na hipótese mais provável de não chover, como pensa que será para ele ter atrás de si ninguém menos de Bottas, Raikkonen e Vettel. “Tenho de fazer a minha parte, largar e tentar me manter lá.” Não será nada fácil. Mas o saldo do fim de semana para Stroll já é altamente positivo. De novo mostrou que pode crescer muito na F1. Felipe Massa, seu parceiro, foi nono, mas larga em sétimo.

O francês de 20 anos da Force India, Ocon, a cada etapa cresce a olhos vistos. Tem talento, regularidade e inteligência para fazer carreira de grande sucesso na F1. Em entrevista ao GloboEsporte.com, em Baku, afirmou: “Minha meta este ano é conquistar um pódio”. E neste sábado, na entrevista, falou: “Quero sair daqui com o pódio que planejei”.

Sempre muito seguro de si, Ocon afirmou: “Não vai ser fácil me ultrapassar”. Referia-se ao fato de Bottas, Raikkonen e Vettel estarem logo atrás de si. Há uma diferença grande de performance entre o carro da Force India e o da Williams de Stroll, na sua frente. Ocon tem chance de assumir o segundo lugar. Tudo isso no seco. Se chover, Stroll pode explorar seus dotes no piso com pouca aderência, até então desconhecido, ao menos na extensão demonstrada em Monza.

O piloto da Force India elogiou a equipe. “Eles me deram um carro fácil de guiar.” Atribuiu sua pilotagem em alto nível nas condições dificílimas da classificação ao trabalho em grupo. “Desde o começo eles me ensinaram muito. Aprendi tantas coisas que não sabia. Esse resultado é fruto de um trabalho em conjunto.”

Não escondeu o jogo

E o que dizer da Ferrari? Não são poucos os que pensam que a escuderia italiana adotou nos carros de Vettel e Raikkonen um acerto que privilegia o desempenho no asfalto seco, por conta de a previsão do tempo indicar boas possibilidades de não chover neste domingo à tarde. Não foi o que Vettel falou: “O resultado não é uma decorrência do acerto que adotamos, com pouca pressão aerodinâmica (usado para asfalto seco, em Monza). Acredito que todos fizeram o mesmo, não existe mais na F1 uma diferenciação grande entre o acerto para seco e molhado”.

Sincero, afirmou: “Simplesmente não foi um bom dia para nós". Mais tarde, os italianos disseram que a falta de aderência no modelo SF70H de Vettel e Raikkonen aconteceu por falta de temperatura nos pneus para pista com grande quantidade de água, de faixa azul. O que tem sido o calcanhar de Aquiles do modelo W08 Hybrid da Mercedes, dificuldade em fazer os pneus atingirem a temperatura de maior aderência, desta vez prejudicou a Ferrari.

Vettel ficou a 2,510 de Hamilton, algo impensável para times de performance tão semelhante até agora. Raikkonen comentou: “Eu não tinha aderência no carro, foi isso, não podia ser mais rápido nas curvas”.

Mas tanto Vettel quanto Raikkonen avisaram os milhares de torcedores da Ferrari. Há muito Monza não recebia público tão extraordinário: “Nosso ritmo de corrida no seco é muito bom”. É bem possível que a dupla da Ferrari passe Ocon e Stroll, o esperado também para Bottas, e assim Vettel e Raikkonen se posicionariam atrás dos pilotos da Mercedes. É o que a lógica sugere. Mas este ano em especial a lógica está sempre em outro lugar, nunca nos autódromos onde a F1 se apresenta.

Na hipótese de Hamilton vencer e Vettel receber a bandeirada em segundo, a F1 vai a Cingapura, prova seguinte, dia 17, com os dois pilotos empatados na classificação do campeonato, o que seria sensacional. Vettel está em primeiro, com 220 pontos. Somaria 18 do segundo lugar e chegaria a 238. Hamilton tem 213. Com os 25 da vitória atingiria os 238 de Vettel. Bottas ocupa hoje o terceiro lugar, com 179.

Outro show esperado ao longo das 53 voltas do GP a Itália é o que deverá ser oferecido por Max e Ricciardo. O holandês não hesitou em afirmar, mesmo largando em 15º: “Se chover de novo vou estar aqui (coletiva dos três primeiros colocados)”. Ricciardo é um especialista em reverter situações desfavoráveis. Não tem carro para obter seis pódios nas 12 etapas realizadas este ano. Mas os conquistou. Sua meta em Monza é “somar um saco de pontos”. Só lembrando, larga em 18º.

A largada será às 14 horas na Itália, 9 horas em Brasília.

Globo Esporte