quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Evolução internacional e falta de pódios ligam alerta na base: "Precisamos jogar mais"

(Foto: Reprodução)


Os resultados (ou a falta deles) nos Campeonatos Mundiais das categorias de base neste ano de 2017 ligaram um alerta importante na formação do vôlei brasileiro. Pela primeira vez desde 1985, nenhuma das seleções jovens, sub-18 e sub-21 no feminino e sub-19 e sub-21 no masculino, foi ao pódio nas competições internacionais. Os títulos foram parar nas mãos de países como Argentina, Rússia, Irã e Itália. Com ou sem tradição, as seleções evoluem enquanto o Brasil apresenta queda significativa no seu rendimento e nas conquistas de taças.

No Mundial Sub-21 disputado em junho, o time brasileiro não ficava fora dos três primeiros lugares na competição por dois torneios seguidos desde 1985 e 1987. Foram 13 edições da competição internacional, e o Brasil só ficou fora do pódio em três deles, justamente em três das quatro competições mais recentes (2011, 2015 e 2017). Para Giovane Gávio, técnico da seleção brasileira sub-23, alguns fatores contribuem para esse declínio, entre eles o investimento dos outros países.

- Existem uma série de situações. O mundo inteiro tem investido mais do que investia no passado. A Polônia, por exemplo, tem centro de treinamento e está oferecendo para o garoto de 17 anos o que tem de melhor no mundo em nível de treinamento. Argentina a mesma coisa. A Rússia tem um centro de treinamento apenas para a categoria de base. Estão se mexendo. Não é mais só um privilégio do Brasil cuidar das categorias de base. Os outros países estão se mexendo muito, então a competividade é maior. O nível lá fora aumentou muito.

O voleibol do Brasil possui um dos centros de treinamentos mais equipados do país, e se tornou referência mundial após a geração de ouro de 1992. Desde 2015, um novo sistema, com intuito de integrar ainda mais as seleções, foi implantado pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV). Técnicos de toda a base estão em contato direto com os treinadores das seleções adultas, e a escolha e nomeação deles também parte dos comandantes principais: Renan Dal Zotto e José Roberto Guimarães.

Segundo Giovane, ainda é cedo para obter resultados claros e visíveis dessas mudanças, e o objetivo principal é alinhar o trabalho para 2021. Construir um passo a passo para que, quando os jovens atingirem a fase adulta, estejam familiarizados com todo o processo de treinamento. Mesmo que as metas da Confederação não estejam focadas neste ciclo olímpico, uma vez que a renovação será pequena para Tóquio, não é apenas a falta de pódios que preocupa.

- Um dos maiores desafios é fazer com que esses jovens joguem mais. Isso ainda é um grande problema. Os campeonatos regionais têm que ser melhores. O que estamos ficando para trás no mundo é justamente isso: os atletas de outros países jogam mais. Nossa condição de jogos caiu muito com os anos. Nossos jogadores estão jogando menos. Antes tinha excursão para Europa, passavam meses jogando, e isso não acontece mais. Temos que nos preparar para voltar a fazer isso, porque talvez a gente pague um preço caro lá na frente e não é a melhor preparação que podemos dar para os jovens. Não tem grana para mandar para Europa, mas tem de colocar esses moleques para jogar.

Pensando nisso, a CBV em parceria com a Confederação Brasileira de Clubes (CBC) lançou nesta temporada o Campeonato Brasileiro Interclubes (CBI) das categorias de base. De outubro a dezembro o calendário terá sete torneios para os jovens do sub-16 ao sub-20. Com apenas uma sede para cada categoria, a ideia é que o modelo evolua e mais competições aconteçam ao longo do ano, mas para isso os recursos terão de ser ainda maiores.

- Esse é o papel da Confederação: fomentar novos campeonatos. Está saindo do papel o Campeonato Brasileiro de Clubes de categoria de base. Mas imagina o desafio logístico e o quanto custa deslocar esses times pelo Brasil. Esse é um problema que temos que resolver. Em um momento que o país enfrenta uma crise financeira, como conseguimos patrocínio para isso?

Com 20 anos Giovane foi jogar na Itália, onde teve a oportunidade de logo cedo ser titular. Nos anos seguintes passou pelas categorias juvenis do Brasil até chegar na principal, quando foi bicampeão olímpico. Uma carreira vitoriosa como jogador e um processo de crescimento determinante. Em 2009 iniciou sua empreitada como técnico e atualmente comanda o time do Sesc/Rio de Janeiro, que venceu a Superliga B na temporada passada e faz sua estreia na elite já como um dos favoritos. Do lado de fora da quadra tanto na Superliga, como na seleção, ele tenta incentivar os meninos a optar por clubes onde tenham mais espaço, mesmo que o nome e salário sejam menores.

- Um jovem precisa estar acostumado a decidir a bola importante. Ele ter mais oportunidade de decidir essas bolas e jogar. São situações que encontramos no jogo que nos treinos não conseguimos simular. Não basta ficar na reserva de um time sem ter essas experiências. Tudo bem, você está do lado de jogadores importantes e pode até aprender olhando, mas aprender fazendo é muito melhor. Nosso jogador faz uma média de 20 jogos por anos, 30 jogos. O jogador argentino da mesma idade deve fazer uma média de 80 jogos. A diferença está aí.

Globo Esporte