sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Histórias Incríveis: as aventuras e tensões de um time brasileiro na Coreia do Norte

(Foto: Reprodução)


Não fosse a certeza de ter despertado minutos antes, Paulo Roberto apostaria que vivia um pesadelo. Fazia frio, a escuridão da madrugada se infiltrava nas primeiras horas da manhã, e ele vagava em agonia. Tentava recordar a rua de onde viera, mas as ruas eram todas iguais. Tentava pedir ajuda às pessoas, mas elas lhe escapavam, agiam como se ele fosse um espectro - uma assombração a ser evitada. As placas nada diziam, e não havia telefone, tampouco internet. A claustrofobia só crescia: quanto mais ele caminhava, mais desnorteado ficava. Era uma manhã de outubro de 2010, e o técnico do Atlético Sorocaba estava perdido na capital da Coreia do Norte.

O susto durou uma hora - até o treinador dar de cara com o acesso à encosta onde repousava o hotel que abrigava o clube do interior paulista em Pyongyang. Passados sete anos, Paulo Roberto classifica o episódio como um "panicozinho" e ri da situação, uma das muitas vividas por uma série de profissionais em excursões do time brasileiro ao país mais fechado do planeta, comandado por uma ditadura que desafia algumas das principais potências globais - sobretudo os Estados Unidos - com testes nucleares.

De 2009 a 2015, o Atlético Sorocaba fez quatro viagens à Coreia do Norte. Lá, viveu o impensável: foi confundido com a seleção brasileira, viu 30 mil pessoas não conseguirem entrar em um estádio já abarrotado por outras 80 mil, levou um atleta americano na delegação, padeceu em silêncio com a arbitragem, chegou a temer reações a eventuais vitórias. Hoje, tudo que resta ao clube é a memória: o time foi fechado no ano passado.

Entender como um modesto clube do interior brasileiro foi parar na Coreia do Norte leva necessariamente à figura de Sun Myung Moon, o Reverendo Moon. Nascido em uma região do norte coreano, quando a península ainda não estava dividida, ele foi o fundador da Igreja da Unificação, um grupo religioso que angariou milhões de seguidores, colecionou controvérsias e teve forte presença no Brasil sobretudo nos anos 90 – adquirindo mais de 80 mil hectares de terra no interior do Mato Grosso do Sul e levando centenas de asiáticos para lá.

Moon ficou preso por cerca de um ano nos Estados Unidos, punido por sonegação fiscal, respondeu a acusações semelhantes no Brasil e foi alvo de uma CPI - encerrada com a sugestão de que o melhor para o estado do Mato Grosso do Sul era se aliar aos empreendimentos do coreano. Ficou famoso por promover casamentos coletivos entre seus fiéis e se viu envolvido em boatos de que praticava lavagem cerebral e servia vinho misturado a seu sangue.

Enquanto isso, expandia seus negócios, que incluíam montadoras de carros e empresas de comunicação. E, amparado por um discurso de propagação da paz, chegava ao futebol. Apaixonado pelo esporte, ele escolheu dois clubes para investir no Brasil: o Cene-MS e o Atlético Sorocaba.

O Reverendo Moon adquiriu o clube paulista no começo da década passada. E passou a injetar dinheiro e estrutura nele. Os resultados logo apareceram. Da terceira divisão paulista em 2001, pulou para a primeira em 2003.

Foi nesse cenário que Moon montou um plano maior: usar o Atlético Sorocaba para levar o futebol brasileiro além das fronteiras mais fechadas do planeta. O reverendo, apesar de anticomunista, tinha um canal de comunicação aberto com a ditadura norte-coreana. No começo dos anos 90, reunira-se com Kim Il-Sung – avô do atual líder do país, Kim Jong-Un.

A oportunidade de ouro surgiu em 2009. A Coreia do Norte classificara-se para a Copa do Mundo do ano seguinte, na África do Sul, e tinha interesse em enfrentar equipes de outros lugares do mundo. Mas seu regime político praticamente inviabilizava a diplomacia necessária para a realização de amistosos. Com a intermediação do Reverendo Moon, porém, seria possível. E lá foi o Atlético Sorocaba.

A delegação chegou à Coreia do Norte pela China – única via aérea para o país. O avião era norte-coreano. E assustou os passageiros. Rachaduras dentro da aeronave estavam tapadas por cola em massa.

- Você já viu avião com Durepoxi? Eu vi – resume Sidnei Gramático, o Passarinho, ex-massagista do Atlético Sorocaba.

- Lembro bem de ter ter visto trincas, remendos com Durepoxi. Foi bem tenso – concorda o ex-goleiro Klayton Scudeler.

No aeroporto de Pyongyang, telefones e passaportes foram confiscados. De lá, o grupo rumou para o monumento em homenagem a Kim Il-Sung, onde um representante do clube depositou flores para a imagem – e o restante do grupo fez um gesto de reverência. Nos dias seguintes, todos os passeios teriam acompanhamento de guias definidos pelo governo. Os destinos, invariavelmente, eram pontos de celebração da ideologia norte-coreana e de culto aos líderes. A propaganda militar era permanente.
Um dia antes do jogo, os atletas foram ao estádio. E ficaram impressionados com sua imponência. Lá, treinaram sob olhares da seleção norte-coreana. Quando foi a vez de os donos da casa fazerem sua atividade, porém, os brasileiros tiveram que sair.

Mas o choque maior veio no dia do jogo. Ao se aproximar do estádio, a delegação do Atlético Sorocaba começou a perceber que aquele não seria um dia normal. Uma multidão cercava o local e vibrava com a chegada do ônibus. Os atletas se questionavam: por que tamanha euforia? Minutos depois, ao entrar em campo e ver BRA no telão, eles entenderam o que acontecia: para o povo da Coreia do Norte, ali estava a seleção brasileira.

- Fui o primeiro atleta a entrar no gramado. Quando entrei, olhei ao redor e falei: “Nossa”. Era muita gente. Estava extremamente lotado. E ficamos sabendo que além dos 80 mil, ficaram 30 mil pessoas fora. (...) Olhamos o placar eletrônico, e não estava escrito Atlético Sorocaba. Estava escrito Brasil, a sigla BRA. A gente ficou sabendo que o pessoal estava esperando algum jogador bem famoso – recorda Klayton.

O começo do jogo trouxe novos espantos para os brasileiros. Quando eles tinham a bola, a torcida silenciava por completo. Não havia vaias, murmúrios, conversas: nada. Era um bloco de silêncio impenetrável. O ambiente só mudava quando a seleção norte-coreana atacava. Aí explodia o som de incentivos ao time.

O jogo foi equilibrado, com os norte-coreanos tentando pressionar sobretudo no primeiro tempo. E enquanto a bola rolava, os brasileiros tentavam fugir de um raciocínio que os perseguia: se eles podiam vencer a partida sem colocar sua segurança em risco.

- Nós comentávamos isso. Era um jogo complicado. Nós estávamos em 30 na delegação. Éramos só nós contra um país inteiro, e não tínhamos uma ideia muito firme do que estávamos passando, do que poderia acontecer ou não. O clima foi tenso na partida. Mas quando você entra em campo, esquece, quer vencer. Mas acho que o placar foi bom para os dois lados – diz Klayton.

O jogo terminou empatado por 0 a 0. Diplomaticamente, foi o resultado perfeito.

- O Reverendo Moon queria era que a gente ganhasse. Só que depois ele se contentou. Ele nos ofereceu um excelente almoço no palácio dele na Coreia do Sul e disse que foi melhor ter empatado, porque assim não tivemos problema para sair. Nunca se sabe o que pode acontecer. Tinha muito militar na arquibancada. Mas, claro, tínhamos a proteção da embaixada – observa Waldir Cipriani, vice-presidente de futebol do Atlético Sorocaba na época.

A Coreia do Norte mandou a campo naquela partida a base da seleção que disputaria a Copa do Mundo de 2010 – e que perderia por 2 a 1 para a seleção brasileira (desta vez, a verdadeira). No mesmo ano, o Atlético Sorocaba retornaria ao país para sua segunda viagem.

As novas viagens, desta vez como Atlético Sorocaba

Quando encontrou o hotel depois de se perder pelas ruas de Pyongyang, Paulo Roberto respirou aliviado – sua caminhada matinal se tornara uma aventura, mas não passara disso. Em segurança, ele voltou a pensar no duelo com a Coreia do Norte. Era uma realidade diferente daquela experimentada por seu antecessor, Edu Marangon, um ano antes. Desta vez, o Atlético Sorocaba não era tratado como seleção brasileira, e o interesse no futebol parecia menor depois do fracasso do país na Copa – sobretudo pela derrota de 7 a 0 para Portugal.

Mesmo assim, cerca de 40 mil pessoas foram assistir à partida no estádio. O público parecia diferente: menos militares, mais mulheres. Mas a principal novidade estava dentro de campo. E portava um apito. O árbitro, norte-coreano, levou o time brasileiro à loucura – favoreceu a seleção local do começo ao fim do jogo. E os visitantes tiveram que aceitar calados.

- Perdemos por 1 a 0, um gol escandaloso de pênalti – lembra Waldir Cipriani.

- Teve uma bola na minha frente que saiu mais de um metro pela linha lateral, e o juiz mandou seguir – recorda Paulo Roberto.

Luan, atacante do Atlético-MG, era do time de 2010 e retornaria à Coreia do Norte na terceira viagem do clube de Sorocaba para lá, em 2011, desta vez sob o comando do técnico Fernando Diniz. Foram dois jogos: derrota de 1 a 0 no primeiro, empate por 0 a 0 no segundo.

- Enfrentamos muitos jogadores que tinham disputado a Copa de 2010. Não tive temor algum. Sou um cara muito enérgico, e jogamos para ganhar. Foi uma experiência muito interessante, em um país muito fechado, com controle sobre tudo – recorda Diniz.

Aquela foi a última vez em que o Atlético Sorocaba levou sua equipe profissional à Coreia do Norte. Depois, o clube só retornaria ao país em 2015, mas com a equipe sub-15. E com um “inimigo” na delegação.

Um americano a bordo

A página do Departamento de Estado Americano na internet avisa: “Recomendamos fortemente que cidadãos americanos não viajem à Coreia do Norte”. O órgão alerta que estrangeiros podem ser presos por longo tempo no país. Foi o que aconteceu com Otto Warmbier, 22 anos, detido sob a acusação de roubar um cartaz político de um hotel. Ele foi condenado a 15 anos de trabalhos forçados, mas acabou enviado de volta aos Estados Unidos em junho passado. Estava em coma. Morreu dias depois.

A inimizade entre Coreia do Norte e Estados Unidos deixou o meio-campista Pedro Lutti um pouco mais ressabiado do que seus colegas quando pintou a oportunidade de viajar ao país asiático em 2015. Por um motivo muito simples: ele é americano.

Nascido em Miami, Pedro tem pais brasileiros e só morou em seu país de origem no primeiro mês de vida. Viajou à Coreia do Norte com documentação brasileira. E teve que aguentar gracinhas dos colegas de time:

- Eles ficavam dizendo que iam contar que eu era americano – lembra o garoto.

O time sub-15 participou de um torneio com equipes da Coreia do Norte, Coreia do Sul, China e Croácia. Terminou em terceiro, depois de também sofrer com a arbitragem.

- A gente ficou louco lá. (...) A final foi entre dois times deles. Em primeiro, ficou a Coreia do Norte, e em segundo, a Coreia do Norte – conta Pedro Lutti.

Em 2015, os garotos já enfrentaram restrições menores do que a dos profissionais que os antecederam. Puderam, por exemplo, entrar com telefones celulares no país – porém, não conseguiam acesso à internet. No hotel, até descobriram um jeito de telefonar para o Brasil. Tiveram que juntar moedas quando chegou a conta, que foi complementada pela diretoria do Atlético Sorocaba. Só um dos telefonemas, de cinco minutos, custara 50 dólares.

As impressões dos brasileiros

Poucos brasileiros têm a possibilidade de visitar a Coreia do Norte. Segundo a embaixada do Brasil em Pyongyang, apenas 65 pessoas do país entraram lá nos dois últimos anos. O futebol deu a jogadores, diretores e membros de comissão técnica uma oportunidade rara.

Os personagens ouvidos pela reportagem concordaram em algumas impressões. Relataram uma capital limpa e organizada, com construções imponentes, mas também disseram ter observado pobreza em deslocamentos mais longos; na primeira viagem, em 2009, sentiram que havia pouca comida no hotel; assombraram-se com a reincidência de propaganda bélica na televisão e em outdoors; sentiram-se vigiados o tempo todo; perceberam um povo de semblante fechado, temeroso de contatos com estrangeiros; notaram forte padronização nas pessoas.

- O semblante da população é uma mistura de medo e tristeza. É um povo bem triste. Dificilmente a gente via alguém sorrindo. É um país muito sem vida, com poucas cores. A gente ficou até meio assustado. Deu um choque. É muito diferente de tudo que eu tinha visto – resume Klayton.

Na decadência, um simulacro da Coreia do Norte

Até o ano passado, em frente à sede do Atlético Sorocaba, a água que jorrava de uma fonte, ornada com uma pequena bola de futebol no topo, era iluminada em amarelo e vermelho – as cores da equipe. Hoje, a fonte, literalmente, secou. Está desativada – a exemplo do futebol do clube.

A morte do Reverendo Moon, em 2012, foi um baque para o time de Sorocaba. Os herdeiros do líder religioso não viram sentido em manter os investimentos no clube. Não ligam para futebol e não encontram utilidade comercial na parceria. Com isso, no ano passado, o Atlético pediu licenciamento à Federação Paulista de Futebol.

Desde então, seu centro de treinamento está subutilizado. É uma estrutura que muito clube grande não tem: quatro campos, dois hotéis, piscina aquecida e academia em um terreno que tem até um lago. A Argélia ficou lá na Copa de 2014. Em um dos troféus que repousam no local, marimbondos iniciaram a construção de uma casa. É a imagem do abandono.

Ironicamente, o CT é utilizado ao menos uma vez por semana pelo São Bento, rival do Atlético Sorocaba. O clube acaba de viver seu melhor momento em décadas: garantiu acesso à Série B do Brasileirão. O treinador é Paulo Roberto, o mesmo que se perdeu pelas ruas de Pyongyang em 2010.

Ao receber dinheiro estrangeiro e ficar tão dependente das organizações do Reverendo Moon, o Atlético não se preparou para o dia em que esse dinheiro parasse de pingar. E não conseguiu criar vínculos com a população – o ex-goleiro Klayton lembra do dia em que o elenco foi assistir a um jogo de basquete na cidade e acabou vaiado pelo público ao entrar no ginásio. 

De certa forma, o clube isolou-se a ponto de ser um estrangeiro na própria terra – como um simulacro do país que tivera o privilégio de visitar.

Globo Esporte