segunda-feira, 5 de março de 2018

Marquinho revela decepção com saída do Fluminense: "Fui tratado como lixo"

(Foto: Hector Werlang)


Mais do que uma grande cicatriz no joelho direito, fruto de duas cirurgias em cinco meses, Marquinho deixou o Fluminense com uma marca que levará tempo a desaparecer: a decepção. Ao ser dispensado por telefone, o meia se sentiu traído, especialmente pelo presidente Pedro Abad.

Tratado como lixo, nas palavras usadas em entrevista ao GloboEsporte.com. A última parte da conversa, realizada na quinta-feira, dia 1º de março, encerrou um período de silêncio.

- Sou um cara explosivo, mas fiquei sem reação. Decepcionado. Depois de tudo o que fiz pelo clube, não só naquele ano, mas pela história. Fui tratado como lixo. Foi uma facada nas costas, uma traição - disse ao lembrar a ligação de Marcelo Teixeira em 28 de dezembro do ano passado.

A partir do aviso, o meia perdeu a esperança de retribuir em campo o salto alcançado na carreira após a primeira passagem pelo Flu. E de mostrar que poderia ajudar o time, afinal, desde o retorno, em julho de 2016, as dores no joelho o impediram de ter sequência.

Este desejo foi revelado na conversa inicial com a reportagem, em 20 de dezembro e não publicada justamente pelo Flu o ter liberado - com outros sete atletas. Entre os dois momentos, a família virou o maior apoio. Até porque ganhou nova integrante: Laura, a primeira filha do jogador.

Nas quase três horas de bate-papo, Marquinho deu a sua versão dos fatos. Contou que os experientes do grupo de liberados, como ele, Henrique e Diego Cavalieri, pagavam contas de funcionários com salários atrasados. E também os detalhes de uma reunião convocada por Abad para planejar a temporada que se aproximava.

Como foi informado da decisão do Flu de te liberar da apresentação em janeiro?

Exatamente um dia antes de eu me machucar, teve uma reunião. Eu me machuquei no dia 19 de novembro de 2017 (pela segunda vez - a primeira cirurgia foi em julho). Então, no dia 18, eu, Gum, Henrique Dourado, Diego Cavalieri, Lucas (Henrique não estava pois tinha um compromisso)... o pessoal mais experiente se reuniu com o presidente Pedro Abad, o Marcelo Teixeira (diretor da base)e Alexandre Torres (gerente de futebol), que ainda era funcionário do clube.

Eles perguntaram como a gente achava que deveria ser o planejamento para 2018. O que deveria mudar. A gente expôs o que achava e as nossas indignações com o clube. Beleza. Lembro do presidente falar “ah, foi a melhor reunião que a gente já fez” e “como foi produtivo”. E aí, um mês depois, no dia 28, o Marcelo Teixeira me liga dizendo que não era para eu me reapresentar e que o Fluminense iria rescindir o meu contrato. Não só comigo, mas com o Henrique, o Diego Cavalieri e mais alguns atletas.

Foi uma surpresa, imagino.

Lógico que foi um baque muito forte. Eu estava debilitado. Lembro que disse ao Marcelo que era pertinente a ligação dele, no dia 28 de dezembro, à tarde, eu com a minha família tentando passar férias, com a perna daquele jeito. E ele me ligando… perguntei algumas coisas a ele, que não soube me responder. Então, foi uma coisa sem pé e nem cabeça. Todo mundo sabia o assunto, mas ninguém sabia explicar os motivos e o que aconteceria dali para frente.

Isso me deixou enfurecido. E muito triste. Como eu estava com a minha família toda… um dos meus cunhados me chamou. E disse que, antes da ligação, havia saído matéria da resicisão de contrato. Falei que não acreditava. A matéria no site do Fluminense, a nota oficial, saiu antes de eu receber a ligação.

E qual foi a reação?

Na hora, telefonei ao Cavalieri. Ele tinha me dito que o Marcelo Teixeira também tinha ligado a ele. Ao Henrique, foi o Marcelo Penha (advogado). Foi uma falta de profissionalismo absurda.

A gente segurou muita coisa nos bastidores para esses caras. O presidente e o Marcelo Teixeira chamavam a gente, pediam para não divulgar nada pois iria denegrir a imagem do clube. Foi tanta coisa. E chega no final do ano e fazem uma sacanagem dessas.

Sacanagem por qual motivo?

É difícil apontar culpados, mas poxa. Não tem como. Foi inaceitável. Eu estava machucado. Se chegassem para mim e falassem que eu estava fora do projeto do ano seguinte, não importa o motivo, mas que iria me recuperar e depois fazer a rescisão, tudo bem. Não sou tricolor fanático, mas eu tenho carinho enorme pelo Fluminense. Eles não tiveram o mínimo de respeito.

A reunião de novembro intensificou esse sentimento? O que foi tratado nela?

Eles pediram ajuda para montar o projeto de 2018. A fazer um Fluminense melhor. Como foi depois do jogo com o Corinthians (ficou no banco, o último que foi relacionado antes da lesão), a reunião foi sábado. A gente tinha jogo na segunda-feira contra a Ponte Preta. E eu machuquei no domingo.

Eles falaram sobre várias coisas, inclusive sobre os salários que estavam infinitamente atrasados. Ninguém aguentava mais. Esses jogadores da reunião… a gente ajudava as pessoas. Como o clube não pagava os salários, a gente pagava conta dos funcionários, como luz, telefone... Alguns não tinham mais dinheiro para ir trabalhar.

As pessoas vinham na gente e pediam. Pediam ajuda por favor. Eram as pessoas mais atingidas. A gente fazia isso pelo bem das pessoas e pelo bem do clube. Por isso, o baque do comunicado foi muito maior. Para os jogadores, o máximo foi cinco meses de imagem e dois de carteira. Para os funcionários, dois meses já impedia de ter condição de ir trabalhar.

Teve outra coisa que me entristeceu. Nunca trabalhei com o Paulo Autuori (diretor executivo esportivo). Mas sempre ouvi falar muito bem dele. Na minha visão, ele chegou acreditando nas pessoas erradas. Eu vi uma entrevista dele, na qual ele afirma que todos os atletas tinham sido avisados antes da nota oficial. E isso não é verdade, não aconteceu. Isso mostra como é o bastidor do Fluminense. Alguém deve ter falado, e o Paulo acreditou. Ele colocou o nome dele em jogo. Um dia vou encontrar com ele e falar o que aconteceu.

Nunca, então, foi dito sobre a possibilidade de rescindir?

Não, nunca. Ninguém chamou o meu representante (Marcio Rivelino) com antecedência para nada. Inclusive o Abel nos procurou depois e disse que não sabia de nada, que não tinha pedido nada.

E antes da ligação... haviam te dito sobre se reapresentar?

Eu ia ao clube todo o dia. Eu operei dia 23 de novembro. Voltei dia 10 de dezembro. Desde então, tratei no clube, normalmente. Antes das férias, eles tinham pedido o passaporte para ver se estava tudo certo, se tinha o visto em dia para poder viajar aos Estados Unidos (para a pré-temporada). Meu último dia no clube foi 26 ou 27 de dezembro.

Após a ligação, o que aconteceu?

Todo mundo sumiu. Era para ter reunião no começo do ano, mas aí o clube foi para os Estados Unidos. Depois de um tempo, procuraram meu representante. Aí foi um outro tratamento. Quem conversou pelo clube foi o Ronaldo Barcelos (vice-presidente comercial), um cara muito educado e disposto a resolver o problema. Ele demonstrou que queria fazer um acordo legal. Não chegou a pedir desculpas pois não falava pelo clube, mas ele mesmo achou que foi conduzido de forma errada. Não gosto de falar por terceiros, mas ele passou isso para a gente.

O clube, ao comunicar a decisão, mostrou preocupação com a lesão?

Só após o começo das conversas para negociar que eu recebi uma carta do clube informando que eu poderia tratar lá. Como eu disse, foi uma atitude impensada. A ligação foi de fechar as portas, e eu tive de me virar. Só depois veio uma carta do departamento médico abrindo as portas para eu tratar. Mas a minha cabeça era que iria tratar em qualquer lugar, menos lá.

A alegação era que a liberação tinha como motivo a dificuldade financeira...
Sou meio chato pois vou até o final para saber das coisas. Abel me mandou mensagens, disse que não teve participação.

Pelo o que a imprensa falou, o Fluminense não teria condições de pagar os salários mais altos. Mas o acordo que eu fiz… foi praticamente tudo o que teria de receber pelo contrato. Não faz sentido algum. Então, o bastidor do Fluminense tem as pessoas que vazam informações e ninguém sabe de nada. As coisas acontecem e ninguém sabe de nada.

Eu não quis me desgastar mais para saber o real motivo. Bastava uma ligação diferente… “Marquinho, vem aqui, vamos falar, trata e depois a gente rescinde”. Poxa, iria entender e aceitar. É do mercado, faz parte. Mas foi como foi…

Por qual motivo não entrou na Justiça como outros jogadores o fizeram?

Pensei muito. Eu prezo sempre pelo bem. Achei que a briga e o desgaste judicial iriam apagar tudo o que fiz pelo clube. A instituição Fluminense e o torcedor são maiores. Só tenho agradecimento a eles. Sou o que sou pois passei pelo Fluminense. E, claro, o Ronaldo conduziu muito bem as conversas. Então, desisti.

O Flu tem cumprido o acordo feito?

Foi parcelado. A primeira parcela já foi paga, está tudo certo. Então, isso me deixa mais dúvida sobre o sentido da coisa.

Você falou dos bastidores do clube. O que mais incomodava?

Não posso apontar o dedo a ninguém. Se alguém falar que o vazamento era culpa do Thiago Bokel (assessor de imprensa do futebol), é mentira. O cara fazia de tudo para blindar o grupo. Poderia ser um jogador. Mas ninguém se assumia. E isso era chato demais. Estava no ambiente de trabalho e tinha de ter cuidado com o que se falava pois poderia vazar.

O que mais pesou foram os salários atrasados. O time era jovem, os caras estavam começando a receber um salário melhor. O cara assume compromissos para ajudar a família, compra casa a pai e mãe e aí não recebe. Vai me dizer que isso não reflete em campo? Claro que reflete.

Abel falava o time para gente e saia na imprensa. Ele não gostava disso, ficava emputecido. E, para blindar o clube, ninguém poderia falar dos salários atrasados.

A impressão que passa é que os jogadores sentiam a direção ausente.

Um dos assuntos da reunião de novembro foi esse. Não se podia criar abismo entre jogador, direção e torcida. O torcedor ficava bravo por não poder cobrar como cobrava nas Laranjeiras ou simplesmente por não ter mais acesso ao jogador. O jogador ficava bravo pois a direção não pagava salários ou porque não cumpria o combinado. E a direção ficava brava com os dois. Pois a torcida não ia aos jogos e a gente não ganhava. Era um ciclo vicioso.

A gente reclamou das promessas não cumpridas. Muitas vezes se disse “vamos pagar na semana quem vem”. E não acontecia. Então, o melhor era não falar. Só falar após pagar. Tivemos vários encontros desses, com o presidente dizendo que iria pagar. E a gente sabia que não tinha pago. Como que ia treinar depois?

Ficou uma mágoa pessoal com a direção?

Não tenho muito o que falar. Fico triste por eles. De repente, não tiveram maldade. Mas não foram profissionais. Espero que aprendam. Fiquei muito nervoso com essa situação do presidente. A gente teve as reuniões, convocadas por ele. E nunca se falou nada de eu, Cavalieri e Henrique saírem. Nada.

Explique a primeira lesão.

Foi uma tendinite que não curava. Estava em um grau muito alto. Quando fiz a ressonância para investigar, estava doendo aqui, no ápice da patela, e o nervo estava necrosado. Era uma tendinite forte. O médico abriu e tirou a parte que estava doente, fez um enxerto. Eu não aguentava mais de dor.

Certamente afetou o rendimento em campo.

Meu rendimento caiu demais. Eu não tinha mais força, não ganhava musculatura. Era 60% do que tinha na outra perna.

Eu não conseguia saltar. Se alguém viesse me driblar, eu trombava e derrubava o marcador ou girava o corpo e sentia muita dor. Outra coisa que não consegui fazer: chutar a gol. Ao colocar o pé no chão, sentia dor. Foi a maior dor da minha carreira. Parecia uma faca entrando no joelho, no nervo. Não tinha equilíbrio. Perdia em qualquer jogo de corpo, em qualquer dividida.

Não conseguia subir escada direito, não conseguia firmar o pé. Comecei a acordar na madrugada, e olha que tenho sono pesado. Com o joelho latejando de dor. Acordava era 3h, 4h. Isso era resultado do esforço que fazia.

Quando chegou ao limite?

Eu chegava uma hora e meia antes de o treino começar e fazia uma série de exercícios para minimizar a dor e poder trabalhar. Após o trabalho, a dor era absurda. Não conseguia dirigir para voltar para casa.

Fiz infiltração, mas não adiantou. A operação foi a última opção. O ano ficou comprometido pela lesão. Se o cara não tem confiança, esquece. Ele não vai demonstrar o futebol que tem. E o mínimo é dar a vida no campo. Quando eu percebi que nem isso eu conseguia, decidi operar.

A volta foi rápida, não?

Estava muito motivado. A recuperação foi rápida e, ao mesmo tempo, teve o nascimento da minha filha. Eu tenho autocrítica. Sei que, desde eu voltei, não tive sequência para mostrar o porquê de ter voltado. Toda a evolução que tive atuando fora do país. Ficava louco comigo pois, no tempo que tinha no campo, não conseguia mostrar o que poderia mostrar. Isso foi um grande problema na minha cabeça.

Mas aí veio a segunda lesão...

Na hora do treino, eu estava muito feliz, era a minha chance de ir para o segundo jogo após a minha cirurgia. Era um treino tático. Recebi a bola na minha intermediária, ergui a cabeça para correr... estourou. Foi uma ruptura completa do tendão patelar.

Senti uma dor absurda. Foi um rasgo, como cortar uma carne dura com faca de serra. Eu estava na linha do meio do campo e o barulho foi tão alto que o Cavalieri que estava no gol, ouviu. O que me impressionou foi o buraco que ficou na minha perna. Gritava de dor. O que veio na minha cabeça era de que a minha carreira iria acabar ali.

O que a primeira tem a ver com a segunda?

Nada. O Filé (Nilton Petrone, fisioterapeuta do Flu) e o Rene Abdala (médico que Marquinho preferiu operar - o jogador pagou os custos médicos, e o Tricolor os hospitalares) me explicaram. Simplesmente aconteceu. Foi pelo desgaste, a degeneração que falamos. O tendão tinha a parte doente, a biópsia mostrou.

Como está o processo de recuperação?

A fisioterapia começou em três turnos. Um no clube, dois em casa. Aluguei e comprei equipamentos para me ajudar. Inicialmente, era para poder flexionar a perta, recuperar o movimento.

Preciso ainda ter amplitude e extensão total dos movimentos. Eu abandonei a muleta em janeiro. E agora já faço musculação em uma academia. Completo com fisioterapia em casa. Aindo sinto dor, algo normal, mas o prazo não mudou por não estar no clube. Em maio, estou apto a voltar a treinar e jogar.

E o futuro? 

Procuro não pensar muito. Se eu pensar, vou atropelar o protocolo e não vou recuperar o meu joelho. A lesão foi muito grave. E é o que estou fazendo. Tem de tratar com cuidado e aproveitar as pessoas que estão ao me redor e gostam de mim.

Tenho de agradecer ao médico, o Rene, e o Filé aqui do Fluminense. Torcedores mandaram mensagem. Não tenho nada contra o clube. Só algumas pessoas que tomaram algumas atitudes.

Globo Esporte