sábado, 23 de junho de 2018

Espelho da alma: fotógrafa iraniana retrata primeira Copa com olhos de esperança

(Foto: Arquivo pessoal)


Ao entrar no gramado, ela passa de forma discreta. Sozinha, carrega uma câmera, uma lente e uma mala com seus equipamentos. Em volta, a maioria esmagadora é formada por homens. Ela, uma jovem fotógrafa em sua primeira Copa do Mundo. Podia ser só mais uma mulher realizando um sonho profissional, mas a simbologia de sua presença vai muito além disso.

O nome dela é Mona Hoobehfekraniana. Iraniana, ela é a primeira fotógrafa de seu país a trabalhar em um Mundial.

- No Irã, nenhuma mulher pode cobrir esportes masculinos. Nunca tive a chance de ir ao estádio torcer, mas sempre acompanhei pela televisão. Tem sido especial - disse.

A tradição está ali, mantida e respeitada no bonito véu estampado que cobre seus cabelos durante a intensa jornada de trabalho na Rússia. Mas o restante do contexto só prova mais uma vez que ocupar espaços e garantir direitos nunca foi e nem será um desrespeito a crença alguma. Mona é uma mulher jovem e está ocupando um espaço sem precedentes para seu país.

Conversar com ela, mesmo que rapidamente, é inspirador. Ao ser abordada, preferiu pedir ajuda a um colega para traduzir. Em persa, ela contou qual foi a sensação de ver de dentro do campo, tão de perto, um gol de sua seleção pela primeira vez. Foi na vitória do Irã sobre o Marrocos, na primeira rodada da fase de grupos. Foi um misto de emoção e desabafo.

- Como foi a primeira vez que cobri um jogo, quando saiu o gol, fiquei emocionada e gritando por trás da câmera. Foi realmente um momento especial - disse.

No Irã, mulheres são proibidas de frequentar estádios e ginásios em eventos esportivos desde 1981. Pela lei local, elas não têm livre acesso às arenas. Até 1987, elas não podiam nem assistir às partidas pela televisão. A Copa do Mundo da Rússia já havia sido marcada pela emoção das torcedoras que puderem apoiar o time. Mas para ela, a missão é ainda mais representativa.

- Espero que essa seja uma forma de abrir o caminho para outras colegas, mulheres, chegarem a cobrir uma Copa do Mundo. Eu sou otimista, acho que um dia as mulheres no Irã terão o direito de frequentarem estádios - disse, ciente de que para muitos em seu país, sua presença neste ambiente pode ser incômoda.

Mona não ''luta'' sozinha. Ao longo dos últimos anos, as mulheres de seu país têm brigado pelo direito de entrar em estádios de futebol. A cada nova classificação do Irã para uma Copa do Mundo, os jogadores costumam comemorar no principal estádio do país, o Azadi, e elas sempre se fazem presentes.

Após a classificação para o Mundial de 1998, cerca de três mil torcedoras invadiram o local para vibrar com a equipe.

Globo Esporte