Presidente da Conmebol diz que River x Boca em Madri é excepcional: "Não pretendemos repetir"

(Foto: EFE)


Pela primeira vez numa história que começou em 1960, a Taça Libertadores será decidida fora da América. Após o atentado cometido por torcedores do River Plate contra o ônibus que levava o Boca Juniors para o jogo decisivo, a Conmebol resolveu levar a finalíssima para Madri. Na véspera da partida, o presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, recebeu o GloboEsporte.com para uma entrevista na qual explica seus motivos, diz que não há tratamento diferente aos clubes brasileiros e diz que a partida em Madri é uma situação excepcional que não vai se repetir. Confira abaixo:

Por que estamos em Madri?

Por uma emergência. A Conmebol tinha que encontrar um campo neutro. Este é um caso excepcional, e casos excepcionais requerem soluções excepcionais. Não planejamos repetir essa situação.

De quem foi a ideia?

Minha, particular. Telefonei a meu amigo Florentino Perez, perguntei se era uma ideia viável ou se era o caso de descartá-la. Florentino me pediu dois minutos e então me ligou de volta, disse que era uma boa ideia e ofereceu o Bernabéu a custo zero para que a Conmebol organizasse o jogo.

Com quais outras cidades negociaram para receber esta final?

Negociações, não. Mas houve outras cidades que se ofereceram voluntariamente, a quem quero agradecer.

Houve ofertas do Brasil, do Paraguai, dos Estados Unidos, da Itália, do Oriente Médio.
Considerou alguma oferta do Brasil?

Sim, claro. Mas sempre achamos que Madri era o lugar ideal, por ser o país que concentra mais argentinos fora da Argentina, tem o aeroporto com mais voos para América do Sul, é a décima cidade mais segura do mundo, então tudo isso nos fez encontrar a neutralidade que buscávamos.

Tem certeza de que não haverá cenas de violência no jogo em Madri?

Estamos seguros, River e Boca vão poder jogar num estádio que está preparado para este tipo de jogo. A cidade é segura, e também estamos confiantes de que cada um vai fazer sua parte, todos vão entender que têm responsabilidade.

Todo o noticiário desta final está baseado em violência, torcedores deportados, número recorde de policiais. É um incômodo que se fale mais disso do que de futebol?

A partir de amanhã (domingo) as pessoas só vão falar de futebol. Antes dos jogos é preciso buscar informação, e lamentavelmente temos que conviver com esse tipo de coisa. Mas este é o jogo de futebol mais importante do mundo, as expectativas são muito altas, é algo excepcional, então é normal que se fale em um esquema de segurança recorde.

Se voltarmos a 24 de novembro no Monumental de Núñez, o que o senhor faria de diferente?

De nossa parte, fizemos tudo o que a Conmebol tinha que fazer. Para a Conmebol era importante que se jogasse no dia 24. Nós planejamos tudo. O que nós não podemos controlar é o que está fora das nossas mãos, como depender do sistema de segurança. Tudo isso depende do Estado, do governo. De nossa parte, nós faríamos tudo exatamente igual. Porque a organização funcionou.

A pena ao River Plate foi uma multa e dois jogos com portões fechados. É uma pena condizente com a gravidade do que aconteceu em Buenos Aires?

Eu não posso opinar sobre a decisão de um órgão independente e autônomo como é o Tribunal de Disciplina. Eu sou respeitoso. Isso não aconteceu apenas na Argentina. Aconteceu também no Brasil, no ano passado, quando se jogou a final da Copa Sul-Americana (entre Flamengo e Independiente). Entendo que este não é um problema só da Argentina. Já vimos no Brasil e é provável que exista também nos outros oito países. Mas temos que começar com ações. E um castigo aos clubes pelo comportamento de seus torcedores pode ter a consequência de que seus torcedores sejam mais responsáveis.

Está seguro de que isso não vai acontecer outra vez? De tirar um jogo importante da América do Sul e trazê-lo para a Europa?

As partidas sempre vão ser jogadas. Enquanto eu for o presidente, as partidas vão ser jogadas. Onde quer que seja, onde haja condições de cumprir os regulamentos e se encontrem todas as condições para abrigar o espetáculo, como estamos comprometidos a fazer agora.

A Libertadores termina amanhã ou vai se prolongar pelos tribunais?

Nunca organizamos (um torneio) em função do que pode acontecer nos tribunais.
Nosso negócio é organizar futebol. A justiça desportiva vai por um caminho separado. Estou convencido de que amanhã se joga, que alguém vai ganhar e vai levar a Libertadores para casa. Não tenho nenhuma dúvida.

No Brasil há uma sensação de que os clubes brasileiros são prejudicados na Libertadores. O que o presidente da Conmebol pensa disso?

Mas no ano passado ganhou um clube brasileiro, e tenho certeza de que não havia essa sensação. É muito comum: quando se ganha, todo mundo se sente bem. Quando se perde, é preciso encontrar desculpas. É o contrário disso, tenho amizade com o Brasil, com a CBF, com os clubes brasileiros, a quem eu pessoalmente convidei, falei com eles, abri as portas da Conmebol. Eles sabem que eu tenho uma só maneira de ser, sabem do meu compromisso com o futebol. Não tenho compromissos com nenhum país e com nenhum clube. Só o tempo vai mostrar o compromisso que eu tenho.

O futebol sul-americano sai manchado desta final em Madri?

Para a autocrítica da América do Sul, dos países, é muito bom. Se queremos nos mostrar para o mundo com um futebol profissional, sério, também temos que começar a assumir responsabilidades para mostrar que temos condições. Há culturas que precisam ser erradicadas. Estou convencido de que o futebol sul-americano sai fortalecido.

O que aconteceu na final da Libertadores põe em risco a candidatura de Argentina, Paraguai e Uruguai a sede da Copa do Mundo de 2030?

Não. A violência não acontece apenas na Libertadores ou na América do Sul. Todo mundo viu que na Europa também há atos violentos, lamentavelmente. Erradicar a violência é um compromisso que o futebol tem que assumir.

Globo Esporte