terça-feira, 16 de agosto de 2016

Médicos gabaritados trabalham de graça por amor ao esporte

(Foto: Iwi Onodera/UOL)


Dentre os voluntários que pausaram suas vidas para vir ao Rio de Janeiro e ajudar na realização dos Jogos Olímpicos, estão profissionais gabaritados no topo de suas áreas de atuação, não apenas jovens procurando engrossar o currículo e se divertir no maior evento esportivo do mundo.

É o caso de diversas pessoas que integram a equipe de serviços médicos, reconhecidos pelo uniforme vermelho dentro e fora das arenas de competição. “Quem mexe com atleta está aqui”, afirmou a Dra. Ana Paula Simões, médica ortopedista e traumatologista do esporte. Ela é delegada regional do comitê de Traumatologia Esportiva e deixou de lado sua atuação na Santa Casa de São Paulo e clínicas particulares por uma semana para participar dos Jogos.

“Minha vida é trabalhar com atleta. Fui atleta a vida toda, quis participar de alguma maneira das Olimpíadas, já que não tive a oportunidade de competir”, falou ela, que nadou pelo Corinthians e chegou ao nível nacional. Segundo ela, há inclusive uma cobrança das pessoas que sabem de seu trabalho com esporte. “Os conhecidos perguntam: ‘como que é médico esportivo e não vai para as Olimpíadas?’”.

Financeiramente, o trabalho não-remunerado nos Jogos não vale a pena, porém confere um certo status a quem integra a equipe médica do evento. “É como se estivesse investindo em um Congresso”, comparou. Mesmo para os colegas que estão recebendo salário pela atuação na Rio-2016, o valor não bate o recebido por consultas. 

Ela se organizou de maneira a não prejudicar os pacientes. “Se fosse alguma urgência, já iriam para o hospital de qualquer maneira. Teve gente que ligou enquanto eu estava aqui, fiz um encaixe para quando eu retornar. Não tive problemas”, contou.

O pouco tempo dedicado aos Jogos, no entanto, possui um motivo familiar. A médica deixou o bebê de 1 ano e 10 meses em casa com o marido. Esta é a parte mais difícil, segundo ela. “Ele não lembra, para mim é que está difícil. A saudade é minha, dele e do marido. É chato chegar ao apartamento e não ter ninguém para contar como foi o dia, dormir junto, acordar e conversar”, falou ela.

Ana Paula estava encarregada do atendimento em quadra durante as partidas de tênis. Havia sempre três médicos à disposição dos atletas, em escala para prestar o atendimento às 12 quadras no Centro Olímpico construído na Barra da Tijuca. A doutora e seus colegas ficavam em uma sala, atentos aos monitores que transmitiam os jogos, e tinham de correr assim que fossem acionados via rádio. Em um atendimento emergencial, o tempo é de extrema importância. “Eu tive de decorar o mapa, conhecer os caminhos mais curtos e onde estavam as portas que permitiriam a nossa entrada. Se fôssemos pelo lugar errado, teríamos de dar uma volta imensa”, explicou ela, que chegou a andar 18 mil passos em um único dia de trabalho no Parque Olímpico.

A estrutura e organização deixaram um pouco a desejar, segundo a médica. Ao chegar para o início do torneio, o carrinho de parada cardiorrespiratória ainda não estava pronto. “Tive de separar todos os remédios, há um padrão que tem de ser seguido”, falou. Ela relatou ainda que havia falta de alguns materiais básicos como copos e papel, e excessos de outros, desnecessários para o tipo de atendimento emergencial que seria feito, como estetoscópios e comadres.

Apesar de não ter tenistas favoritos, ela contou com animação sobre as duas vezes em que Rafael Nadal entrou na salinha dos médicos.  Especialista em pé e tornozelo, Ana Paula foi acionada algumas vezes. Foi ela a responsável por atender o entorse do alemão Dustin Brown, que deu uma vitória por WO ao brasileiro Thomaz Bellucci. Outros atendimentos curiosos incluíram uma dor de barriga e uma dor de cabeça. “Alguns atletas gostam de parar o tempo e nos chamar para uma avaliação para ganhar um descanso”, confessou. Os mais simpáticos, segundo ela, eram os brasileiros e os espanhóis. Os demais entravam e saíam calados. “Não sei se é por conta da língua. Antes da partida, estão sempre muito concentrados”, disse.

Quando encerrava o expediente, a médica aproveitava para assistir a diversos eventos. “Estou me sentindo tanto num parque de diversões que fico sem saber onde ir”, falou. Após trabalhar 10 anos com a CBF e a seleção feminina de futebol, Ana Paula está feliz pelo reconhecimento atingido pelo grupo nesta edição dos Jogos. “Elas têm muito amor à camisa. É a diferença de quando se joga por garra ou simplesmente por jogar. Fico muito feliz por terem conseguido seguir seu caminho”, comentou.

UOL Esporte