Sebastian Vettel chega a Singapura sob enorme pressão para voltar a vencer

(Foto: Mark Thompson/Getty Images)


As torcidas italiana e alemã, especialmente, bem como os líderes da Ferrari vão acompanhar de perto o trabalho de Sebastian Vettel no circuito de Marina Bay, em Singapura, no fim de semana. O piloto alemão de 31 anos, segundo colocado no campeonato, com 30 pontos a menos do líder, Lewis Hamilton, da Mercedes, 256 a 226, está sob enorme pressão.

A instabilidade emocional de Vettel, reconhecida por sua equipe e outros profissionais da F1, tem grande responsabilidade no fato de não explorar, por completo, o imenso potencial de vitórias disponibilizado pelo fantástico modelo SF71H da Ferrari. Venceu com autoridade o GP da Bélgica, dia 26, mas já no domingo seguinte, em Monza, em frente a 90 mil fãs da F1, a maioria da Ferrari, o lado fraco de Vettel se manifestou de novo: nem sempre reage com frieza ao ataque ou aproximação de um adversário. Ele tem histórico elevado de erros nessa condição.

Os italianos não querem saber. A Ferrari entrega a Vettel o carro mais eficiente da F1, entenda-se o chassi mais equilibrado e a unidade motriz mais potente, e o traçado de rua de 5.065 metros do Circuito Marina Bay evidencia esses dotes. Portanto, o piloto alemão que trate de corresponder ao que se espera dele: ganhar a corrida em Singapura e reduzir a diferença que o separa de Hamilton na classificação do mundial para depois, nas seis etapas finais do calendário, disputar o título com o piloto que não conta com um equipamento tão primoroso, mas está na frente.

Os tifosi, Maurizio Arrivabene, diretor da Ferrari, e a imprensa italiana vão cobrar com energia uma reação de Vettel, no fim de semana, em seguida a frustrar todos, em Monza, ao colidir com Hamilton na segunda chicane, após a largada, quando era ultrapassado. Foi um acidente que poderia ter sido evitado. Mesmo perdendo o segundo lugar para o concorrente, há o consenso de que Vettel teria ainda boas chances de reultrapassá-lo, considerando-se a maior velocidade do modelo SF71H da Ferrari em relação ao W09 da Mercedes.

Ele é o culpado

Mas não é apenas o acontecimento de Monza que coloca Vettel sob pressão não fácil de ser administrada em Singapura. Ao longo da semana os jornalistas italianos lembraram nas várias mídias a sequência de avaliações equivocadas de Vettel nesta temporada. E de maneira direta relacionam a liderança de Hamilton, entre os pilotos, e da Mercedes, escuderias, à inconstância do piloto da Ferrari.

Além de ter sido somente quarto no GP da Itália, Vettel abandonou o da Alemanha, dia 22 de julho, por bater sozinho quando era líder. Na prova de Baku, no Azerbaijão, 29 de abril, o alemão tentou ultrapassar Valtteri Bottas, da Mercedes, na relargada do safety car, seguiu reto na curva 1 e terminou apenas em quarto. Na volta da França ao mundial, dia 24 de junho, ainda na largada colidiu contra a traseira da Mercedes de Bottas, obrigando a ambos regressar aos boxes. Recebeu a bandeirada em quinto.

Na etapa seguinte, Áustria, 1º de julho, Vettel recebeu três posições de punição no grid por estar na trajetória de Carlos Sainz Júnior, da Renault, na definição do grid, atrapalhando-o. Os dois pilotos da Mercedes abandonaram a corrida com problemas, mas Vettel não aproveitou a chance de ouro. Foi terceiro. Max Verstappen, da RBR, venceu, com Kimi Raikkonen, companheiro de Ferrari, em segundo.

O falecido presidente da Ferrari, Sérgio Marchionne, admirava Vettel, mas o viu errar, em 2017, nos GPs do Azerbaijão, quando descontrolado jogou sua Ferrari na direção da Mercedes de Hamilton, e foi punido, e na largada do evento em Singapura também. Ao compreender que Max, segundo no grid, poderia ultrapassá-lo, Vettel, pole position, fechou a porta sem medir, com precisão, as consequências. Resultado: colisão múltipla. Ele próprio, Max e até Raikkonen abandonaram. A Ferrari tinha o carro mais rápido.

Reações intempestivas

Marchionne afirmou que para a Ferrari ser campeã “Sebastian não poderia mais ser como os emotivos italianos do sul”.

É interessante como, apesar de alemão, Vettel por vezes se deixa trair pela emoção, com reações intempestivas. E é coisa antiga. Quem não se lembra da disputa com o então companheiro de RBR, em 2010, Mark Webber, no GP da Turquia. Os dois colidiram. Vettel tentou ultrapassá-lo, mas fechou a porta antes de completar a manobra, gerando o choque.

Podemos ir para o campeonato seguinte, 2011. No GP do Canadá, Vettel liderava na última volta e Jenson Button, McLaren, em segundo, se aproximava, após corrida espetacular. Vettel não resistiu à pressão, errou e Button o ultrapassou para vencer. Ele ficou em segundo.

Não é bem assim

Sob os efeitos da desconfiança generalizada da torcida em Monza, no fim do evento, Vettel procurou se defender. Primeiro considerou “incompreensível” a disputa do primeiro lugar com Raikkonen na curva 1, em seguida à largada. O finlandês, pole position, travou as rodas para evitar de Vettel, segundo no grid, o ultrapassar.

Na mesma conversa com a imprensa, Vettel lembrou que no dia anterior, na sessão de classificação, o diretor esportivo, Diego Ioverno, o liberou primeiro para deixar os boxes com o segundo jogos de pneus supermacios, na última tentativa de registrar o melhor tempo no Q3. Raikkonen, ao deixar os boxes depois, teve como usar o vácuo do carro à frente, essencial no mais veloz circuito da F1, Monza, 5.793 metros, para estabelecer a pole position.

O piloto alemão afirmou:

- Não há como me sentir contente com a maneira de a Ferrari administrar as coisas. No sábado eu deveria ter ficado com a pole. Está bem evidente para mim, eu luto contra três carros e dentre eles o do meu companheiro de equipe.

Mesmo havendo 175 pontos em jogo nas sete corridas que restam (25 x 7), parece ser pouco provável vermos Raikkonen e Bottas entrarem na luta pelo título com Hamilton e Vettel. O finlandês da Ferrari tem hoje 164 pontos e Bottas, 159. Ambos ainda não venceram na temporada, enquanto Hamilton, seis vezes, e Vettel, cinco.

Total razão

Apesar da postura pouca esportiva de Vettel em Monza, depois da bandeirada, que o fez já na segunda-feira afirmar não precisar de jogo de equipe para ser campeão, o que ele disse é uma verdade. Curiosamente o time que mais se caracteriza por concentrar seu interesse em um de seus pilotos, a Ferrari, desta vez, de forma pouco compreensível, está deixando a competição correr solta.

E a Mercedes, cujo diretor, Toto Wolff, afirma “odiar” ordenar Bottas se sacrificar em favor de Hamilton, tem explorado o jogo de equipe para disputar a liderança do campeonato. Em Monza, o responsável pela estratégia dos pilotos da Mercedes, James Vowles, pediu no rádio para Bottas segurar Raikkonen atrás de si “o máximo possível”. Isso para que Hamilton, com pit stop tardio, pudesse se aproximar do piloto da Ferrari e tentar a ultrapassagem para vencer, com aconteceu na 45ª volta, de um total de 53, na freada da primeira chicane.

Vettel disse bem: a Ferrari não trabalhou em equipe, como a Mercedes, para ele, sábado, obter a pole e, no domingo, assumir a liderança na freada da primeira chicane, orientando Raikkonen a não dar tudo a fim de não ser ultrapassado. Tudo isso teria evitado o choque com Hamilton e, provavelmente, levado Vettel a vencer, com Raikkonen em segundo e Hamilton, terceiro.

A meta da Ferrari, antes da largada em Monza, com Raikkonen na pole e Vettel em segundo no grid, era o alemão vencer com o companheiro em segundo. A posição esperada para Hamilton seria a terceira, a mais lógica. Dessa maneira, a diferença de pontos entre Vettel e Hamilton, anteriormente de 17 pontos (231 a 214), cairia para somente 7 (246 a 239).

Pois nada disso aconteceu e a diferença de Hamilton para Vettel cresceu para perigosos 30 pontos. Mesmo que o piloto inglês não faça pontos, domingo, e Vettel vença, ele segue líder do campeonato.

Será interessante observar o comportamento de Raikkonen nos três dias de competição em Singapura. O jovem talentoso monegasco Charles Leclerc, de 20 anos, da Sauber, tem contrato com a Ferrari, assinado a pedido de Marchionne. Mas Raikkonen quer mostrar à F1 que pode ser ainda útil a outro time. Atravessa fase excelente, apesar de estar bem próximo dos 39 anos, dia 17 de outubro. Obteve seis pódios nos sete últimos GPs. A única exceção foi na Bélgica, atingido pelo acidente provocado por Nico Hulkenberg, da Renault, na largada.

O finlandês já demonstrou, em Monza, que não está nem aí para o fato de Vettel precisar da sua ajuda na luta com Hamilton, como faz Bottas. Se a ordem não vier da direção da Ferrari, espontaneamente Raikkonen não fará nada para o companheiro ser campeão, ainda que sejam amigos, residem próximos, na Suíça, e vez por outra, como contam, se reúnem fora do ambiente da F1.

Retrospecto de sucesso

O histórico de Vettel no Circuito Marina Bay associado à velocidade, constância e confiabilidade do modelo SF71H o credencia a corresponder ao que lhe se será cobrado sem perdão no fim de semana. Ele esteve nas dez edições do GP de Singapura até agora realizados. Venceu quatro, sendo três com RBR, 2011 a 2013, e uma com Ferrari, 2015. E em dois anos chegou no pódio, 2010 e 2014. Obteve quatro poles.

Hamilton também tem retrospecto favorável no Circuito Marina Bay, com três vitórias, 2009, McLaren, e 2014 e 2017, Mercedes, e três poles. E ambos podem ainda ter como adversários, na edição deste ano, os companheiros de equipe, Raikkonen e Bottas, e mesmo os pilotos da RBR, Max Verstappen e Daniel Ricciardo. No caso do australiano, se não precisar substituir a unidade motriz Renault, com problemas em Monza, pouco provável.

Os primeiros treinos do GP noturno da F1 começam nesta sexta-feira às 5h30, horário de Brasília

Globo Esporte