Rivalidades individuais recheiam Palmeiras x São Paulo contra crises



Alan Kardec vai enfrentar a fúria da torcida palmeirense por ter ido para o rival

Palmeiras e São Paulo se enfrentam neste domingo (17), às 16h, no Pacaembu, pelo Brasileirão. Mas não é só mais um clássico, como a falta de apelo do primeiro turno do Brasileirão pode transparecer. A partida de agora coloca frente a frente rivais que cumpriram durante a pausa da Copa do Mundo toda a teoria - e só a teoria - para serem protagonistas durante o segundo semestre.

Até agora, no entanto, protagonizam o fracasso. O Palmeiras não vence com Ricardo Gareca no Brasileirão e caminha para as últimas posições. O São Paulo de Muricy Ramalho, mais caro do Brasil, faz muito menos do que o esperado e se distancia da ponta. E para rechear tudo isso, o clássico ainda estará repleto de duelos individuais.

O momento ruim das duas equipes mascara embates importantes que serão vividos na tarde de domingo no Pacaembu. O mais óbvio é o do atacante Alan Kardec: melhor do Palmeiras na campanha de 2013, na Série B, agora veste a camisa do rival. Ainda, marca o retorno do chileno Jorge Valdivia após o fracassada e nebulosa tentativa de deixar o clube. O meia se reencontra com Rogério Ceni, que tem motivos para levar o clássico e o duelo a sério. Ainda, os presidente Carlos Miguel Aidar e Paulo Nobre se enfrentam após romperem ligações e o zagueiro Lúcio tem mais uma chance de provar que o São Paulo errou.

Alan Kardec x Pacaembu

O atacante resolveu boa parte dos problemas de Gilson Kleina na Série B. Jogou bem e apresentou desempenho melhor ainda no Paulistão desse ano. Virou referência da torcida alviverde, que chegou a fazer campanha para vê-lo na Copa do Mundo de 2014. Ficou na lista de espera, de sete nomes. Mas quando isso aconteceu já negociava com o São Paulo. Tudo porque o Palmeiras lhe ofereceu uma renovação contratual - após acordo com o Benfica - com direito a R$ 220 mil e depois quis voltar atrás: seriam só R$ 200 mil. Kardec se irritou, foi ao mercado e encontrou o São Paulo, que pagou R$ 14 milhões ao clube português.

Os episódios que seguiram a negociação foram de ruptura entre os clubes rivais. O presidente Paulo Nobre convocou entrevista coletiva para explicar a saída do atacante. Disse que Kardec devia o próprio sucesso ao Palmeiras e que o presidente são-paulino Carlos Miguel Aidar age de forma sorrateira e antiética. Houve resposta: Aidar chamou Nobre de "patético" e disse que o Palmeiras se apequena ano a ano. Nobre rompeu ligações.

A grande questão é que durante todo o processo a torcida do Palmeiras não se mostrou tão magoada com Alan Kardec. A crítica predominante foi à diretoria do Palmeiras, que voltou atrás no acerto com o atacante e deixou escapar aquele que virava a grande referência da equipe. Agora, no Pacaembu, Kardec testará a receptividade. Não sabe se ouvirá vaias ou aplausos do torcedor.



Aidar poderá voltar a tripudiar em cima do Palmeiras caso veja o São Paulo vencer

Aidar x Nobre
A briga, como explicada, aconteceu no fim de abril, duas semanas depois de Aidar ser eleito o sucessor de Juvenal Juvêncio. A entrevista coletiva do presidente são-paulino teve requintes de folclore: à época, o lateral direito do Barcelona Daniel Alves havia acabado de passar por episódio de racismo no qual comeu uma banana atirada em campo, em partida contra o Villarreal, na Espanha. Aidar, então, levou à entrevista coletiva uma sacola cheia de bananas e espalhou - ele mesmo - os cachos ao redor da mesa em que falaria com os jornalistas. Foi nesse cenário em que o presidente são-paulino chamou Nobre de "patético".

A relação entre os clubes está estremecida, obviamente. Internamente, no São Paulo, a tentativa é de personalizar o atrito entre Aidar e Nobre, e não entre os clubes. Na última quinta-feira Aidar falou no CT da Barra Funda, enquanto apresentava Michel Bastos como reforço, que votaria em Nobre para a reeleição, no fim do ano. Colocou panos quentes.

Durante esta última semana, também, o atrito se fez claro pela ausência de Nobre num almoço organizado pelo G4, entidade criada pelos quatro grandes clubes do estado de São Paulo. Aidar, Mario Gobbi e Odílio Rodrigues foram, ao lado de importantes membros das diretorias de São Paulo, Corinthians e Santos. Paulo Nobre não foi. O pretexto do encontro foi homenagear Juvenal Juvêncio, presente, mas a real intenção era cobrar Aidar pelos atritos, principalmente com o Palmeiras. O presidente são-paulino manifestou desejo de reconciliação.



Valdivia volta a encontrar Rogério Ceni, seu desafeto em partidas anteriores

Rogério Ceni x Valdivia
A rivalidade pessoal começou no Paulistão de 2008, com o chororô. Na primeira fase, o Palmeiras venceu por 4 a 1 e o chileno aproveitou a reclamação do goleiro em um pênalti para ironizá-lo. Na semifinal do torneio, o São Paulo venceu com gol de mão de Adriano Imperador e viveu no jogo de volta o famoso jogo do gás de pimenta, no Palestra Itália. Durante a partida, os refletores do estádio chegaram a ser apagados e Rogério Ceni desferiu um tapa no rosto do chileno, que depois marcaria um gol, dançaria e pediria silêncio ao capitão rival.

Entre 2010 e 2013, após a volta de Valdivia ao Palmeiras, os encontros com Rogério Ceni não renderam mais tantos episódios marcantes além de provocações e empurrões que viraram habituais. No Paulistão desse ano, no entanto, a dupla protagonizou mais um caso de rivalidade pessoal. No clássico, o chileno marcou um gol de cabeça e foi comemorar passando a centímetros de Ceni. Ao passar perto do goleiro, sofreu uma tentativa de rasteira despretenciosa enquanto desferiu um soco no ar.



Lúcio dará toda a sua raça para mostrar para os são-paulinos que ele é bom zagueiro

Lúcio x São Paulo

O zagueiro pentacampeão mundial foi a grande contratação do São Paulo em 2013, para que o time tivesse a cara da Copa Libertadores. Não deu nada certo. Entre idas e vindas ao banco de reservas ainda sob o comando de Ney Franco, Lúcio teve alguns episódios de indisciplina. Um dos mais marcantes foi após a derrota do São Paulo para o Arsenal de Sarandí, na Argentina, no qual o zagueiro foi substituído quando a partida ainda estava empatada. Naquela noite, ele não quis ficar no vestiário para ouvir as palavras finais dos companheiros e do treinador e, ao desembarcar no Brasil, soltou a frase que viraria célebre: "Quando eu saí estava 0 a 0". Ganhou de presente o banco de reservas por alguns jogos.

Depois, com Paulo Autuori, veio a gota d'água. O treinador mandou diversos recados ao jogador durante a crise que encaminhava o São Paulo ao rebaixamento. Questionava publicamente a "volúpia" de alguns atletas. Aquilo, na tradução, era um pedido de Autuori para que o zagueiro cumprisse à risca as orientações táticas e deixasse de se mandar ao ataque. Num episódio de indisciplina mais tarde, Autuori o afastou com o aval da diretoria. Nem a volta de Muricy o salvou, e ele acabou dispensado no fim de 2013.

Na mesma partida em que Valdivia e Rogério Ceni voltaram a se estranhar, Lúcio reencontrou o São Paulo. Hoje, com Gareca, ele vive fase superior à de qualquer zagueiro são-paulino. Agora, terá mais uma vez a chance de provar que a diretoria que agora é rival cometeu um erro.

UOL Esporte

Ponto de Opinião: O que veremos em campo hoje não é um clássico de amor a camisa, futebol nos pés e boas jogadas. Será de interesses, reclamações, intrigas e cutucões contra duas equipes que ainda não mostraram totalmente para que veio. De um lado, um centenário com todas as caras de ser o pior ano de todos e do outro um elenco caro, porém anulado. Vemos dois times esperando que esse jogo seja a grande reviravolta em suas histórias, mas somente para aquele que vencer. O empate mostra como nem com todos esses fatores o jogo fica interessante.

Comentários