quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Dez anos após boom, mulheres já bateram 80% dos recordes da era dos super trajes

 (Foto: Facebook/Fina)


Há dez anos, uma revolução acertou em cheio a natação mundial. Não em estilo, técnica ou comportamento. Mas em vestimenta. Trajes feitos principalmente à base de poliuretano, que ajudavam de maneira impensável na flutuação e na compressão do corpo, foram liberados pela Fina (Federação Internacional de Natação) e seu efeito devastador foi visto com mais clareza nos Jogos Olímpicos de Pequim, que na última quarta-feira comemoraram uma década de seu início.

Naquela Olimpíada, sobretudo por causa do maiô tecnológico, que cobria quase todo o corpo de homens e mulheres, foram quebrados 25 recordes mundiais e 65 recordes olímpicos - entre eles o de Cesar Cielo na final dos 50m livre (21s30), que permanece até hoje.

Pequim foi o momento em que os trajes se tornaram assunto no esporte mundial, tanto por sua eficácia quanto pela polêmica que traziam. Enquanto as novas marcas chamaram a atenção e garantiram índices de audiência incríveis para as provas nas piscinas, muitos críticos defenderam que aquilo desvirtuava a modalidade.

- A flutuação do atleta, com aquilo, melhorava muito. O traje comprimia, bem apertado, aqueles que estavam um pouquinho fora de forma, mais gordinhos. Ele fazia com que o corpo ficasse em uma posição hidrodinâmica muito favorável - disse o técnico Fernando Vanzella, que em 2008 foi à Olimpíada como treinador de Thiago Pereira.

Após a primeira onda de recordes em 2008, uma outra leva de fornecedores entrou na jogada no ano seguinte e inundou o mercado de maiôs ainda mais rápidos. Prova disso é que nunca se viu tantos recordes mundiais como no Campeonato Mundial de Roma de 2009, quando foram registradas 43 novas marcas, entre as quais a dos 100m livre feita por Cesar Cielo (46s91), também ainda em vigor.

- Você economizava energia para sustentar o corpo na superfície. O traje ajudava muito nisso. E aí sobrava energia para aplicar força em deslocamento - disse o nadador Guilherme Guido, recordista sul-americano dos 100m costas.

Para aplacar tanta polêmica, Fina decidiu banir, a partir de 2010, a roupa da discórdia. Após mais de 140 novos recordes mundiais em dois anos, a natação “voltou no tempo”. Aos homens, só seria permitido nadar com bermuda. Às mulheres, ficou liberado um maiô que cobre parte das pernas e do abdômen, o que é fundamental para entender por que elas têm sido mais eficientes do que eles para quebrar as marcas de 2008 e 2009.

A natação feminina já bateu 80% dos recordes estabelecidos com os trajes de poliuretano em provas que estão no programa de Campeonatos Mundiais e Jogos Olímpicos. As mulheres já bateram todas as marcas feitas em 2008. Os homens, menos de 40%.

Única nadadora brasileira, homem ou mulher, a bater um recorde mundial individual de 2010 para cá, Etiene Medeiros endossa a tese de o traje feminino tornar mais possível a quebra de marcas. Porém, também vê uma evolução do naipe feminino.

- Acho que tem aí o fato de as mulheres terem um pouco mais de pano. Ele segura muito o quadril. Enquanto isso, o masculino fica mais na bermudinha. Então, pode ser um fator, sim. Mas eu acho que as meninas apareceram mais. A transformação do nível feminino mundial está crescendo mais ainda - disse Etiene, recordista mundial dos 50m costas em piscina curta desde 2014.

Atualmente, entre os brasileiros, somente ela e Cesar Cielo (50m livre e 100m livre em piscina longa, de 50m) detêm recordes mundiais. Michael Phelps é quem mais recordes detém, sete, enquanto no naipe feminino as líderes são a sueca Sarah Sjostrom e a húngara Katinka Hosszu.

Ninguém, porém, brilhou mais do que a norte-americana Katie Ledecky. Aos 21 anos, a multimedalhista olímpica e mundial já quebrou 14 recordes mundiais, todos em piscina longa, dos 400m livre aos 1.500m livre. Ela simplesmente ignorou o impacto dos trajes: nos 800m livre, baixou dez segundos da marca desde que ascendeu ao cenário internacional.

- Os trajes ajudavam muito na flutuação. Então, o que a gente tem que fazer é trabalhar muscularmente para ajudar a flutuação. E foi aí que entramos com trabalho de core muito interessante - comentou Guido sobre atividades feitas para fortalecer o abdômen.

A reportagem levou Guido ao Centro Paralímpico de Treinamento, em São Paulo, para um teste. O nadador deu dois tiros, com todo gás, de 50m costas. Um com os trajes de poliuretano, que ele ainda tinha guardado, e outro com o traje atual. A diferença foi nítida.

Com o maiô tecnológico, ele fez um tempo de 25s14, que lhe causou surpresa de tão bom. Quando nadou com a bermudinha atual, cravou 26s05, marca bem inferior.

Ou seja, traje faz mesmo muita diferença. A natação parece ter acertado ao limitar a tecnologia. Porque, quando a roupa saiu de cena, os atletas voltaram a brilhar.

Globo Esporte