Após pedido de desculpas, secretário da Fifa visita obras da Copa no Brasil em 12 de março
De acordo com Stephane Schorderet, conselheiro de imprensa e porta-voz da embaixada francesa, o uso do pronome "se" (também "se", em português) antes do verbo "donner" ("dar") torna o verbo pronominal: "não significa que uma pessoa vai dar um pontapé em você", afirmou ele em contato telefônico com a reportagem do Terra. "Você mesmo vai dar em você um pontapé atrás para acelerar o movimento", completou.
A explicação de Schorderet, que fala português com bastante sotaque e pedia auxílio a uma assistente quando não conseguia encontrar a palavra que queria para se comunicar no idioma oficial do Brasil, corrobora a justificativa de Valcke.
Na última sexta-feira, durante encontro da International Board em Bagshot, na Inglaterra, o secretário-geral da Fifa fez duras críticas às "muitas coisas atrasadas" na organização do próximo Mundial. "Não entendo por que as coisas não avançam. A construção dos estádios não está acontecendo dentro dos prazos. Por que será?", afirmou.
Para completar, ele usou a polêmica expressão, que no Brasil foi traduzida como: "os organizadores precisam de um pontapé na bunda". Isso gerou um mal-estar com o governo brasileiro, o que motivou o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, a pedir oficialmente a substituição de Valcke como interlocutor da Fifa nos assuntos relacionados à Copa. Na última segunda-feira, o francês enviou uma carta com um pedido de desculpas ao ministro, dizendo-se mal interpretado e apontando que a controversa frase significa apenas "acelerar o ritmo".
"Un coup de pied aux fesses" significa exatamente "um golpe com o pé na parte traseira do corpo", mas o fato de Valcke ter utilizado o verbo "donner" como pronominal altera a frase, conforme atestou Schorderet. "A imagem é que se você der um pontapé a si mesmo você vai ir em frente mais rapidamente. Você está seguindo um ritmo, parece dormir um pouco, então precisa se motivar", afirmou o porta-voz, para quem "não há uma expressão similar" em português. Segundo ele, "dar um tapa em si mesmo para acordar" seria o mais próximo que existe.
"É uma expressão muito comum na França", prosseguiu o representante da embaixada, que ainda deu um exemplo de como ela é costumeiramente usada. "Um pai pode dizer a seu filho que não trabalha de maneira optimal: 'você precisar de te dar um pontapé no traseiro para se motivar, acelerar o movimento e obter os resultados esperados'", disse ele. "Não há mal em relação a essa expressão. Não é de qualquer maneira um insulto. É um conselho".
A reportagem consultou ainda a tradutora juramentada de francês Isabelle Nieto, cujo nome está listado na Associação Profissional dos Tradutores Públicos e Intérpretes Comerciais do Estado de São Paulo (ATPIESP). Ela também confirmou a explicação de Jérome Valcke, dizendo que a presença do pronome "se" na frase do dirigente é "importantíssima e fundamental".
"Quando você fala 'se donner' é realmente que você mesmo tem que tomar uma atitude para ir mais rápido, no sentido de andar, se movimentar para frente, realmente você próprio se movimentar, tem que tomar uma atitude", explicou Isabelle. "Se fosse 'leur donner' ('dar a eles') aí seria 'dar um pontapé na bunda deles'".
A tradutora, que é brasileira e filha de franceses, ainda apontou que a expressão empregada por Valcke "não é chula". "Você usa no cotidiano. Por exemplo, eu posso falar para o meu filho - é no sentido que ele tem que se mexer", encerrou.
Entenda a polêmica
Em entrevista concedida na sexta-feira (02/03), o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, disse que os organizadores do Mundial de 2014 precisavam de um "pontapé na bunda" para as obras da Copa do Mundo andarem no País, e afirmou que os preparativos brasileiros estão em "estado crítico".
As palavras não foram bem recebidas pelo governo brasileiro, e o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, afirmou no sábado (03/03) que não quer mais Valcke como interlocutor da Fifa para os assuntos relacionados à Copa de 2014. "As declarações são inaceitáveis, inadequadas para o governo brasileiro", disse Rebelo.
Não é de hoje que Valcke enfrenta rusgas com as autoridades brasileiras. Em comunicado publicado no site da Fifa, o secretário pediu rapidez com a aprovação da Lei Geral da Copa: "o texto deveria ter sido aprovado em 2007 e já estamos em 2012", declarou.
No meio do fogo cruzado, o presidente do Comitê Organizador Local (COL), Ricardo Teixeira, manteve discurso neutro e apenas ressaltou que tudo sairá como o planejado. "Em todo processo democrático as discussões devem ser amplas e sempre levar em conta os interesses do povo", disse Teixeira na nota.
Na segunda-feira (05/03), Aldo Rebelo enviou à Suíça uma carta solicitando um novo interlocutor entre o governo brasileiro e a entidade máxima do futebol mundial. De acordo com o ministro do Esporte, "a forma e o conteúdo das declarações escapam aos padrões aceitáveis de convivência harmônica entre um país soberano como o Brasil e uma organização internacional centenária como a Fifa".
No mesmo dia, Marco Maia, presidente da Câmara dos Deputados, também atacou as palavras de Valcke, chamando o secretário-geral da Fifa de "deselegante". "Foi uma declaração que merece na verdade é que a gente dê um chute daqui para lá de volta e que se repudie qualquer declaração desse nível", opinou Maia.
Posteriormente, Valcke publicou carta em que se desculpava pelo incidente que classificou como um mal entendido. Segundo o dirigente da Fifa, o que houve não passou de um erro de tradução, e o Brasil segue seguro como "única opção para sediar a Copa do Mundo".